Opinião
ONU e o futuro
Sexta-feira, 26 de setembro de 2003. A Organização das Nações Unidas finalmente toma uma iniciativa prática em relação a seus próprios funcionários em área de perigo e começa a evacuá-los do Iraque ocupado pelo exército dos Estados Unidos. A medida é correta, pois nem os invasores americanos nem os invadidos iraquianos confiam na ONU, essa é a triste verdade. Ambos desprezam a entidade e a consideram alheia e nociva aos seus interesses. Essa dupla repulsa se dá em função da entidade ter tentado ficar em cima do muro, querendo agradar aos dois contendores ao mesmo tempo. A ONU nem apoiou abertamente aos Estados Unidos, nem criticou como deveria a política agressora americana ? o governo Bush viu isso como uma traição, pois exigia o aval oficial da entidade para seu plano de invasão, o que não conseguiu. Em relação ao Iraque, a ONU respaldou e fiscalizou o desarmamento do país, atestando a inexistência de armas proibidas e até mísseis convencionais foram destruídos; logo depois desse desarmamento, o Iraque foi inapelavelmente atacado e massacrado ? daí, os iraquianos vêem a ONU como inimiga. Sair desse território adverso é apenas um paliativo no sentido de se evitar um mal maior, seja para os funcionários inocentes da ONU seja para o futuro político da instituição. Sérgio Vieira de Mello é o maior exemplo das vítimas inocentes de uma ONU culpada. Seu assassinato foi uma grande prova da incompetência política e militar de uma instituição que deveria estar preparada para atuar dirimindo conflitos internacionais. Já se disse que o diplomata brasileiro foi sacrificado por uma bandeira inexistente ? a autoridade da instituição a que pertencia. Sérgio Vieira de Mello teve coragem para assumir um posto de alto risco ao mesmo tempo em que criticava a posição na ONU em relação ao Iraque. Desde que foi designado para a missão, apontou a alta periculosidade e baixa rentabilidade da mesma. Estava certo e provou com a vida. Como disse o presidente Lula na abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas deste ano, ?a ONU precisa ser reformada?. Ou a ONU se reformula, readquirindo a autoridade devida, ou sua história se apresenta como uma sucessão de recuos e retiradas ? como a iniciada, tardiamente, na sexta-feira.