Opinião
Culturalmente analógico, digital às vezes
.
O fantástico universo digital é indispensável nas nossas atividades cotidianas. Em alguns casos, naquilo que é, digamos, mais simples, até tenho gosto em praticar rotineiramente. Na maioria das vezes, quando a complexidade exige um conhecimento apurado, prefiro não tentar e recorrer aos colegas jovens, ágeis, autênticas feras no mundo virtual. Melhor o básico no uso de plataformas do dia a dia no notebook e os maravilhosos smartphones dominados literalmente pela geração dos anos noventa para cá. Culturalmente analógico, não sinto qualquer constrangimento em assim me definir nesses novos tempos tecnológicos, porque para mim tudo funciona tão bem como se usasse exclusivamente a complexidade da comunicação moderna. Como em outros tempos, mantenho o hábito do primeiro compromisso matinal ao chegar no escritório às oito da manhã: folhear e ler o que me interessa nos jornais impressos. Anos passados chegavam na minha mesa, logo cedo, pelo menos três títulos distintos. Quem não alcançou ou não lembra, houve época em Maceió que circulavam quatro jornais diários. À tarde era a hora de receber os poderosos do Rio e São Paulo como Jornal do Brasil, O Globo, Folha e Estadão. Minha atividade profissional por um tempo foi comercialização de espaço inicialmente no Jornal de Alagoas e posteriormente nesta Gazeta. Daí a imperativa necessidade de acompanhar formatos de anúncios, diagramação, enfim, a evolução gráfica dos grandes meios de comunicação. Apesar de possuir dois tablets – presenteados, claro – ainda não consegui o hábito do conforto da leitura digital rotineiramente. Nos finais de semana prefiro meus livros impressos no balanço da rede, na varanda do meu cantinho na Praia de Sonho Verde. Frequento, entretanto, as redes sociais mantendo uma presença constante porque acho a exposição de imagens, opiniões e o debate sadio gostoso de curtir. É um divertimento, um passatempo legal até para reencontrar ou fazer novas amizades e de aprendizado com as informações positivas lá postadas. Infelizmente a intolerante hipocrisia, a guerra chula e imoral de facções ideológicas tornou a internet numa grande rede de mentira que agrada aos olhos e ouvidos de um número incalculável de internautas. Uma espécie de “me engana que eu gosto”. Se o debate é político, prevalece o apoio incondicional a quem mente mais, promete e agride mais, desrespeita disseminando discórdia. Li da psicanalista mineira, Simone Demolinari, em seu blog, definindo a hipocrisia como palavra originalmente usada para qualificar atores que ocultam a realidade por trás das máscaras. “A hipocrisia é o ato de forjar sentimentos, comportamentos e virtudes que não se possui. Ocorre quando uma pessoa, incapaz, simula condutas e exige do outro virtudes que ela mesma não possui”. Empurra para alguém a responsabilidade dos seus fracassos porque sabe que no conjunto da sociedade tem plateia que acolhe e aplaude freneticamente atores hipócritas. Gente que cega ao ponto de incapacitar-se de enxergar o desvio de caráter de uns tantos. Com isso há uma inversão de valores nas redes sociais, enquanto a interação vai ficando desagradável, virulenta e até pornográfica. A internet, através de suas mídias, não deve afetar negativamente os relacionamentos pessoais, mas um espaço de diálogo onde os indivíduos se curtam com harmonia.