Opinião
A erudi��o
GILBERTO DE MACEDO * Erudição é o acervo acumulado, a um só tempo, de vastos e profundos conhecimentos em diversas áreas ? das ciências, das artes e da filosofia ? organizados na mente de uma pessoa. Riqueza intelectual em forma de conceitos, que permite ao portador manifestar-se com pertinência e clareza à altura dos mais elevados níveis das teorias do seu tempo. Define-se como cultura erudita. É uma aquisição pessoal. Como diz André Malraux: ?A cultura não se herda; ela se conquista?. Embora bastante influenciada, não depende totalmente da aprendizagem escolar formal e da titulação acadêmica, podendo ocorrer até na ausência da diplomação institucional, como é o caso de autodidatas, ou seja, pessoas dotadas de viva inteligência e freqüente dedicação às leituras de bons livros, sobretudo os clássicos. Um exemplo muito conhecido de erudito autodidata é o português José Saramago, detentor do Prêmio Nobel de Literatura. Outros muitos existem, anônimos, despercebidos da comunidade. É forma de saber. Como tal algo de importância notável e extraordinária na vida de alguém, como já dizia o filósofo Burípedes: ?A aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas?. Pérolas que significam riqueza material. Ao contrário disso, é a ignorância. Ignorância da falta absoluta de conhecimento, ou da posse de conhecimentos deformados, distantes da verdade. Em ambos casos, desprovida de qualquer valor, daí a frase precisa de Etienne Souriau: ?A ignorância não possui virtudes?. Dizer isso, não é pedantismo, orgulho ou arrogância, apenas constatação. Pois, erudição é, ainda, conhecimento confirmado, disposto à criatividade e aberto à manifestações úteis quando estimulada e solicitada. Reserva intelectual de variadas faces, num conjunto de conceitos. É conhecimento elevado e conciso, enriquecido durante as atividades criativas de leituras, mostrando que esse auto-didatismo é fecundo e inovador, e não simples acúmulo de textos lidos. Significa conhecimento correto, elaborado com precisão objetiva e método, de acordo com a natureza da matéria em questão, pois como diz Seingalt: ?Saber mal é pior que ignorar?. Trata-se, então, antes, de conhecer teoricamente, através da exposição escrita das idéias e dos conceitos, conforme são expostos nos textos de obras e publicações especializadas, em cada área do saber. Portanto, feita com discernimento que permite escolher com acerto as fontes desse conhecimento. Não se trata, pois, de um processo quantitativo de leituras, mas qualitativamente inteligível. Para tanto, exige um esforço mental personalizado pela reflexão sobre o que expõe o texto consultado. Assim, procede o auto-didatismo com maior exigência de concentração mental que no curso da audiência de aula explicitada pelo professor durante o encontro ensino-aprendizagem. Cultivar a erudição é, assim, tarefa meritória que engrandece a pessoa. É o saber que se constrói sem a imediata preocupação do interesse profissional. É o saber pelo saber, e para o saber. (*) É MÉDICO