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Opinião

Cangaceiros em Chã Preta

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Ainda no gélido alvorecer, sob os resquícios de pálidas e esparsas nuvens que amiúde se arrastam no firmamento vaticinando o início de mais um dia, das paupérrimas paragens e não menos ressequidos boqueirões de um solo pedregoso das estreitas passagens sertanejas, um séquito de homens se arrasta em direção as úmidas e esverdeadas plagas de uma Viçosa rural, banhada diuturnamente pelas mansas águas do caudaloso [rio] Paraíba, sempre com suas manias de curvas e sinuosidades, cujo destino daquele séquito de cangaceiros era saquear o próspero Engenho Recanto, máxime do empreendedorismo do Coronel Othon Odilon de Barros Correia, em meados de 1927, cujo testemunho de tão fatídica visita pereniza-se nos anais dos seculares periódico viçosenses.

Pouco a pouco o silêncio do entardecer era interrompido com o estalar dos gravetos e frenéticas carreiras de esqueléticas lagartixas, que se emaranhavam sob as folhagens dos arbustos ao pisar das botinas dos integrantes do cangaço, cujas informações davam conta de sua presença naquelas plagas. Velhas espingardas corroídas pelo marrom da ferrugem se faziam ouvir a distâncias dali, o odor da pólvora que saia de seus cumpridos canos inebriava a plêiade de cangaceiros e jagunços do coronel Othon Correia que trocavam entre si tiros, buscando a expulsão ou a morte dos facínoras que insistiam em saquearem o incipiente Engenho Recanto, localizado no atual Município de Chã Preta. Os percalços de tão inusitado embate ocorrido nas imediações de Recanto causou sobremaneira um abalo profundo na saúde do abastado senhor de engenho Othon Correia, que já em avançada idade fora obrigado pelo médico local a ter absoluto repouso, como condição sine qua non para uma breve convalescência e posterior recuperação, sendo neste lapso temporal visitado em sua residência por alguns amigos e correligionários: Tenente Coronel Tito de Barros Correia (Comandante de Polícia), Doutor José Sayão Barreto Falcão (Promotor Público) e Coronel Eduardo Rebelo Torres Maia, que noticiados do acontecimento bélico rumaram de Viçosa para prestar solidariedade ao Chefe Político daquela comuna caeté. As peripécias em que se viu envolvido ao longo de sua existência terrena, fizeram de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, um misto de herói e bandido por toda região nordeste, com sua comitiva de cangaceiros desertores, deixou uma trilha de saques e mortes por onde transitava, cujos versos improvisados do poeta cearense Geraldo Amâncio traduz com verossimilhança a personalidade do rei do cangaço: “Foi herói, bandido e louco/foi um mestre sem estudo/um gênio acima de tudo/que teve o mal como troco/se envultava em pé de toco/ ou na força da oração/enfrentava um batalhão/sem levar nenhum balaço/ Lampião, rei do cangaço/ foi assombro do sertão.”

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