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Causa e coisa

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EDUARDO BOMFIM * O fato é que não foi de nenhum filósofo ou psicanalista, a paternidade da frase. Eu a ouvi, dias atrás, na TV, em um despretensioso programa de juventude. Ela reflete todo um período em que a tese do individualismo, da busca desesperada pelo sucesso como estilo de vida, não importa a que preço, reinou absoluta durante mais de oito anos no Brasil e 20 na Europa e nos EUA. Abro um parêntese, para lembrar que durante grande parte do período do arbítrio, a máxima apregoada e vociferada aos quatro cantos, era ?o negócio é falar inglês?. Fora disso, o jovem amargaria a sua existência no inferno, ou com muita sorte no purgatório. Refiro-me, é claro, aos da classe média. Naquela época, uma parte deles lutou contra o regime de exceção e comeu o pão que o diabo amassou. Outra, atônita e desesperada, optou pela contestação através da sociopatia em grupo, em comunidades idílicas, apartadas das contradições e lutas que se desenrolavam no País. A expressão maior desta postura alienada foi o movimento hippie e suas variantes. A grande maioria, no entanto, foi conduzida aos milhares de cursos de inglês que proliferaram em toda a nação. O Brasil passaria em poucos anos a falar a língua do Tio Sam. O português resistiu bravamente, pela sua riqueza e mobilidade, além do destemido combate de alguns intelectuais, particularmente os filólogos, dentre eles o alagoano Aurélio Buarque de Holanda. Os músicos, poetas, escritores, jornalistas, a luta política clandestina ou aberta também deram as suas contribuições. Talvez, a maior trincheira nesta batalha tenha vindo realmente das características que conformaram o povo brasileiro. Este é o único país do mundo onde um legítimo descendente de chineses, veste uma camisa verde e transforma-se em um fanático torcedor de um time de futebol, cujas origens advêm de uma colônia italiana. Faço este rodeio imenso para retomar o tema inicial, a frase do jovem que não citei ainda. Ele afirmou que as pessoas estão sendo usadas e as coisas estão sendo amadas. Sinceramente, este jovem de uma lucidez reluzente, atingiu o coração de uma ideologia que foi hegemônica. Porque denuncia a ausência da solidariedade, a tentativa do assassinato de um projeto social coletivo, a lei da selva nas cidades, o descaso para com os mais fracos, o abandono de milhões de excluídos. Dos povos massacrados pela tirania das armas e das mentiras fabricadas, que justificam as ações dos agressores e logo após são desmascaradas e nada, absolutamente nada, acontece. Vejam o escândalo recente na Inglaterra, culminando com o suicídio de um cientista que denunciou a farsa das provas fabricadas para justificar a invasão do Iraque e utilizadas pelo primeiro ministro Tony Blair, em discurso perante o congresso americano. O suicida mais assassinado da história daquele país. E agora, escândalo semelhante estoura nos EUA, envolvendo a Casa Branca. Estes tempos em que os seres humanos transformaram-se em átomos, colidindo uns com os outros, coisificados. Tão poderosos que se prenunciava o ?fim da História?. Não sobreviveu, porém, a Graciliano Ramos, Portinari, Vianinha, Bolívar, Camões, Chaplin e seu imortal vagabundo, Miguel de Cervantes e Dom Quixote, enfrentando os moinhos de vento, ao lado do inseparável Sancho Pança. Aos combatentes pela liberdade de todos os tempos, os vivos e os mortos. Desmoronou até na frase de um jovem de 20 anos. Esgotou-se, vem sendo derrotado, desmascarado, mas ainda determina os rumos dos acontecimentos. Acho que tal doutrina é assim como um vírus mutante. Em 1939 possuía outro nome e justificativa, mas provocou a morte de milhões de pessoas sempre a serviço da bestialização do capital e do esmagamento dos outros povos. Jamais será vencedor porque a causa maior do ser humano será sempre a medida de todas as coisas, nunca o seu contrário. (*) É ADVOGADO

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