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MARCOS DAVI MELO * Poucos dias antes de o Estatuto do Idoso ter sido assinado festivamente pelo presidente Lula, perdemos um dos seus mais peculiares representantes. Era um dos caminhantes da praia; andando desarticuladamente, vestindo uma folclórica bermuda azul amarrada por uma cinta e fazendo saudações efusivas a quantos com ele cruzavam diariamente, fizesse sol ou chuva, Dalmo, mesmo a distância, era inconfundível. Encontrava-o também ocasionalmente nos finais de expediente, quando parava o carro para botar gasolina. Exaltado como era de seu feitio, abria a carteira gritando e mostrava os retratos dos netos. Repetia todos os nomes e bradava o amor que sentia pelos mesmos. Daniel, estudante de Medicina era um dos seus orgulhos. Mas não só os netos eram a razão de sua vida. Bem-sucedido em uma cirurgia de quatro pontes de safena, há mais de 15 anos, seu jeitão rústico escondia uma sensibilidade singela: inevitavelmente suas caminhadas se encerravam com a colheita de uma pequena flor silvestre destinada a sua esposa. Quando cruzávamos nos sábados sempre me perguntava qual seria o tema do meu artigo na GAZETA DE ALAGOAS. Quando lia e gostava, generosa e rudemente admoestava: ?Você deveria juntá-los e publicar um livro! Deixe de besteira!? Dalmo era um idoso bem aposentado que teria tudo para viver tranqüilo, mas o mundo dos provectos é um emaranhar de apreensões. Além dos achaques e as limitações naturais da idade, tem as dietas, os remédios, os planos de saúde, o SUS. Os idosos ainda são assoberbados com preocupações com os familiares: o emprego do filho, a saúde da filha, a feira do genro, o namorado da neta, a desatenção de um, o desprezo de outro... O Estatuto do Idoso, em tese, vem para lhes garantir os direitos que uma sociedade civilizada deveria lhes proporcionar. Coisa de primeiro mundo. Todavia, podem ser mais um conjunto de normas sem uso prático. Melhor por enquanto, é arranjar algum tempo na azáfama diária e dar um pouco de atenção ao velho que na maior parte do tempo vive isolado. Nesta roda-viva estressante, ser paciente e deixá-lo fazer as suas reminiscências. Afinal, o que ele tem de melhor é o passado. Um telefonema afável, uma simples presença, uma palavra encorajadora, um afago sincero, um abraço, um cheiro, podem ser muito mais efetivos e insubstituíveis para um idoso do que este Estatuto, ainda tão distante e impalpável quanto o propalado espetáculo do crescimento econômico. (*)É MÉDICO

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