Opinião
Dever e consci�ncia
EDUARDO BOMFIM * Creio ser fundamental a atenção sobre a necessidade de uma compreensão sobre as novas exigências históricas, ajustada ao rico processo que vivenciamos. Assim é que recapitulo a convicção de que estamos em um período de resistência, entrincheirados mesmo, em relação a uma doutrina hegemônica e perniciosa aos povos de todo o mundo, em particular às nações emergentes como o Brasil. Isto não se constitui em nenhuma novidade. Economistas, cientistas políticos, organizações populares já bradam por este diagnóstico há muito tempo. Desejo apenas, somar as minhas inquietudes e ações a este movimento que já é amplamente largo e consensual entre os segmentos de esquerda, patrióticos, progressistas, tanto em nosso País como em todo o Nordeste. Peço vênia, pela vinculação da palavra ?patriótica? aos outros adjetivos que reafirmam o campo dos que se batem pelos interesses maiores da sociedade, da Nação. Porque de alguns anos para cá, talvez em conseqüência do processo de globalização do capital especulativo, acrescido da revolução científica e tecnológica dos meios de comunicação, esta palavra que determina muito mais que o nosso chão e tudo mais que nele se encerra, virou palavrão em algumas hostes da intelectualidade e áreas da esquerda. Um palavrão miserável, robusto, de fazer corar Bocage em seus contos mais inspirados e devassos. Parece-me, no entanto, que esta onda vai se esmaecendo em conseqüência dos efeitos trágicos de mais de 20 anos de neoliberalismo, doutrina que sustentou a necessidade da expansão antropofágica do capital financeiro internacional e aliados nativos, destruindo as bases dos estados nacionais e suas empresas estratégicas, além da falácia do livre mercado em condições justas para todos os países. Não se pode confundir desconhecimento com cumplicidade e ingenuidade com imbecilidade. Assim é que todo internacionalista deve ser ao mesmo tempo um patriota, um lutador das causas nacionais e dos interesses da libertação social dos trabalhadores. Marxista ou não, desconhece-se na história das lutas em favor da emancipação social, algum movimento, liderança ou organização política que tenha sido vitorioso, apartado da causa nacional. Do pacifista Ghandi que iniciou a débâcle total do antigo império britânico, até o vietnamita Ho Chi Minh, frágil, magro, cara de Papai Noel asiático, mas que expulsou três impérios, com a paciência e o sábio caráter de uma cultura milenar. O patriota não é o xenófobo. Este último é um intolerante, irracional, obtuso, inimigo do conhecimento universal, da justa e fraterna relação entre os cidadãos do globo, da solidariedade entre as nações e trabalhadores oprimidos do mundo inteiro. Megalômano, só enxerga a sua aldeia. Dito tudo isto, considero que os fatos demonstram que os novos e auspiciosos ventos continuam soprando e anunciando mudanças. O discurso do presidente Lula durante a abertura da Bienal do Mercosul revela o esforço de construção de uma nova prática baseada na valorização da nossa identidade, assim como em relação à integração econômica e cultural dos povos sul-americanos. Significa uma postura de vanguarda, começando pelo nosso continente. Não é necessário um exercício profundo para dimensionar o valor, a força da consolidação desta iniciativa. Além disso, bate-se insistentemente na tecla da necessidade da apropriação pelas amplas massas do povo, do conhecimento. Já na Bolívia, realizou-se a ?VII Conferência Ibero-Americana de Cultura?, tendo como importante resolução um plano de leitura como forma de luta contra a exclusão social. Os Ministérios da Cultura e do Turismo do Brasil lançam o projeto ?Comissão Brasileira do Cinema?, voltada à promoção de cada região do País, valorizando a rica diversidade cultural nacional. A verdade é que, a iniciativa e repercussão destes eventos, assumem novas estaturas, exatamente porque são impulsionadas através de políticas públicas que fortalecem substancialmente um nascente projeto estratégico. (*) É ADVOGADO