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Opinião

O poder embriaga

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RONALD MENDONÇA * Segundo o presidente do Supremo Tribunal Federal, Maurício Correia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria deslumbrado com o poder. Pessoalmente, não tenho a mínima condição de opinar sobre o assunto, até pelo fato de não conhecer os hábitos presidenciais antes de envergar a gloriosa faixa da República. Muito mais os conheço agora: o gosto pelas peladas, churrascos, cachacinha (parece que foi substituída pelo uísque), pelos filminhos, charutos cubanos, barbeiro e alfaiate. Verdade ou não, o fato é que o deslumbramento em graus variados faz parte do ser humano. Lembro que na adolescência tínhamos um time de futebol presidido por um sapateiro. Homem simples e cordial, de fala mansa e rara, trabalhava o dia todo recurvado, ouvindo a Rádio Difusora, um olho na sola e outro na sovela, costurando, colando e polindo. Aos domingos, lá estava ele na missa integrando a Congregação Mariana, contrito. Era um dos mais piedosos. Mal saía da igreja o cara se transformava. Aos berros, chamava um auxiliar para providenciar o saco de chuteiras para uma última revisão e ia recontar o terno de camisa. Misto de presidente e sapateiro, as camisas eram lavadas em sua casa pela, própria esposa. A essa altura, os atletas já estavam em torno dele ajudando no que podiam ou ouvindo as orientações sobre o esquema tático a ser utilizado. Sim, porque o nosso dinâmico presidente ainda acumulava as funções de técnico. Era justamente aí onde residia o perigo. Imaginem uma fera enjaulada. Pois era assim o aspecto do nosso tímido sapateiro na hora em que a bola rolava. A compleição franzina do bom cristão tomava ares leoninos. As feições transmudavam-se a partir dos cabelos em desalinho, do olhar selvagem e da saliva espessa. À beira da apoplexia, sua expressão era medonha. Contrastando com as doces orações da manhã, de sua boca só saíam impropérios. Xingando adversários, árbitro e até o próprio time, havia momentos em que, humilhados, a nossa gana era de voar no seu pescoço ? atitude temerária que ninguém ousava assumir. Em mais de uma ocasião o insólito técnico arremessou-se ao chão, chorando e esperneando como uma criança malcriada. Nesses momentos o jogo parava e alguém mais atrevido tentava acalmá-lo. Certa feita, revoltado pela não marcação de um pênalti a nosso favor, invadiu o campo para afrontar o árbitro ? por sinal um legendário coronel reformado, temido pela pouca cerimônia com que sacava o seu ?38?. Nesse dia, nosso herói passou de levar um tiro, mas dormiu na cadeia. Aos poucos, o sapateiro foi se ?polindo?. Habituado aos cargos, foi ficando relapso, as chuteiras perdendo brilho e cravos. Faltavam camisas. O pior era durante as partidas, quando o descaso chegou ao ponto de o sujeito dormir pelo excesso de bebidas. É essa última parte que a gente não quer que aconteça ao Lula. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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