Opinião
Fissuras internas
Os Estados Unidos se empenham para criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O governo americano apresentou uma proposta preliminar privilegiando temas do seu interesse, como, por exemplo, serviços, compras governamentais, redução de tarifas sobre bens industriais e patentes. O que defende o Brasil? Grosso modo, que os subsídios fartamente distribuídos aos agricultores dos Estados Unidos sejam objeto de negociação no âmbito da Alca, uma vez que prejudicam enormemente o Brasil e os demais países latinos, cujas pautas de exportação possuem fortes componentes destes produtos. Na proposta apresentada pelos Estados Unidos, outros temas de interesse do Brasil e dos demais países latino-americanos, como legislação anti-dumping e a livre circulação de trabalhadores, ficaram de fora. O Brasil desejaria que também estes temas fossem incluídos nas discussões para a criação da Alca. A posição do Brasil quanto à Alca até o momento é clara: sem a inclusão na negociação da questão dos subsídios agrícolas, a definição sobre patentes e investimentos deve também ser remetida à Organização Mundial do Comércio (OMC), como querem os Estados Unidos em questões do seu interesse. A alternativa defendida pelos brasileiros nas negociações é a celebração de acordos bilaterais entre os Estados Unidos e o Mercosul. A criação da Alca da forma como proposta pelos americanos sempre teve muitos adeptos no Brasil. As justificativas mais comuns era de que o País não teria como enfrentar o poderio americano e, se não se submetesse às pressões dos Estados Unidos, terminaria por ficar isolado e assistindo a assinatura de acordos bilaterais daquele país com os demais países latino-americanos. Se até a reunião da Alca em Trinidad Tobago, realizada na semana passada, o governo brasileiro apresentava publicamente uma firme coesão em torno da nova postura de defesa dos interesses do país, com as declarações recentes dos ministros da Agricultura e Desenvolvimento, criticando a nova orientação, ficou demonstrado que dentro do governo há fissuras e há quem defenda a velha postura do lado de dentro da equipe Lula. Não seria o caso do governo se unificar acerca dessa questão?