Opinião
Morte da Justi�a
DOM FERNANDO IÓRIO * José Saramago, um dos maiores escritores portugueses da atualidade, num de seus badalados artigos, chama-nos atenção para o fato que vai narrar, acontecido nos arredores de Florença, há mais de quatrocentos anos. Encontravam-se os moradores nas suas casas e no cultivo do campo, quando, de súbito, de inopino, se ouviu o soar do sino da igreja. Nada de extraordinário o tocar do sino que se fazia ouvir, por várias vezes, durante o dia. Entretanto, agora, a finados, badalava, melancolicamente o bronze sagrado, sem parar. Quem teria morrido, vez que, na aldeia, pessoa alguma se encontrava às ascas da morte?!... Saíram as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, bem assim, homens e camponeses deixaram seus plantios e trabalhos... Em pouco tempo, estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. Instantes após, abriu-se a porta do templo e um simples camponês apareceu no limiar. Ora, não sendo este o encarregado de tocar, habitualmente, o sino, compreende-se como todos os presentes lhe perguntassem: onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. ? O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino, foi a resposta do camponês. E adiantou: ?Ninguém que tivesse nome e figura de gente morreu. Toquei o sino para anunciar a morte da Justiça. Ganancioso senhor, dono de muitas terras, apossou-se do único chão que eu possuía. Apelei para a voz do sino, anunciando a morte da Justiça, apelando para a sua ressurreição a fim de que retorne para minhas mãos aquilo que é meu.? Não sei se foi essa a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, campânula inerte de bronze, depois de tanto haver dobrado na morte de seres humanos, tenha chorado a morte da Justiça. Se nunca mais se ouviu aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, entretanto continuou e continua a Justiça a morrer todos os dias. Quem sabe? Talvez agora mesmo, aqui de lado ou à porta de nossa casa esteja a Justiça morrendo. E, no entanto, sempre a esperamos: não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas aquela justiça pedestre, companheira cotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, aquela justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito, como o pão para alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso o determinasse a lei, mas também e sobretudo uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste. Parece que não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. A mim me parece que o camponês de Florença acaba de subir, uma vez mais, à torre da igreja. O sino vai tocar. Será mais um anúncio da morte da Justiça?!... (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS