Opinião
Hist�ria longa e �rdua
MARCOS DAVI MELO * ?A medicina é a ciência dos assassinos!?, bradou Napoleão a seu médico-chefe, o barão René Desgenettes. Ao que o médico respondeu: ?Que definição o senhor daria para a ciência dos conquistadores??. A intolerância de Napoleão não é um caso único na história. As dificuldades enfrentadas pelos médicos vêm desde aquelas inerentes a sua profissão, como as muitas outras que surgem a cada dia. É preciso enfrentá-las com discernimento e sem paixões, para poder prosseguir com equilíbrio, levando auxílio e apoio a quantos nos procurem em suas horas de aflições e angústias. A história da medicina, que é tão antiga quanto a do homem, mostra que desde os primórdios o homem procura por todos os meios a seu alcance, libertar-se da doença, do sofrimento e afugentar a morte iminente. Do período neolítico existem crânios de seres humanos submetidos à trepanação e que sobreviveram à operação, mesmo quando repetidas três, até cinco vezes. Assim, a áurea de magia e fantasia chega ao século IV e aos santos Cosme e Damião, que eram chamados de médicos anárgiros porque nunca cobravam de seus pacientes e a quem a lenda atribui curas milagrosas: são os responsáveis pelo primeiro transplante da história. Episódio eternizado em uma pintura de Fra Angélico, exposta no Museo Delli Ofizzi, em Florença. Para substituir a perna gangrenada de um doente que tinha necessidade de amputação, foram os santos ao cemitério, em busca de uma que lhes pudesse servir para aquele fim. O único cadáver utilizável naquela ocasião era o de um negro etíope, mas os santos não tinham preconceitos raciais nem problemas de histocompatibilidade. Retiraram pois do cadáver o membro de que o enfermo carecia e o transplante foi, por graça de Deus, um êxito completo, realçado ainda pela diferença de cor. Amanhã, dia dedicado aos médicos, quisera pudéssemos contar com milagres para contemplar os nossos pacientes e para sensibilizar as autoridades, tornando o exercício da profissão menos penoso. Como não estão mais disponíveis, resta-nos o consolo dos princípios da medicina científica, um legado de Hipócrates. Hipócrates em seu aforismo I, 1, diz: ?A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experiência enganosa, o julgamento difícil?. Queria dizer que a ciência caminha junto com o humanismo e a humildade; só a observação meticulosa e atenta e a experiência seriam aliadas da melhor prática e toda uma vida seria insuficiente para se saber tudo o que se gostaria de medicina e certamente da vida. Napoleão, ao final, reconheceu o valor de Desgennetes e o considerou ?o homem mais virtuoso do mundo?. As restrições à prática médica que possa beneficiar um maior número de pacientes podem estar não só nas crônicas limitações de recursos para o setor, como na politização e na partidarização da saúde pública. Ao médico, cabe manter a todo o custo a integridade de suas ações, beneficiar ao máximo os seus pacientes e não sucumbir às muitas distorções e descaminhos de seu longo e árduo caminho. (*) É MÉDICO