Opinião
Esmeralda em crise
RONALD MENDONÇA * A anunciada e breve tentativa de rebelião dos neurocirurgiões da Unidade de Emergência dá o tom do nível de satisfação dos médicos com as questões salarial e de condições de trabalho naquele hospital. Durante as rodadas de negociações duas coisas ficaram muito claras: a crueza oficial e a tentativa de humilhar o povo alagoano com a ameaça de importar médicos-residentes do estado de Pernambuco para substituir os pretensos grevistas. Aliás, a idéia de trazer aprendizes pernambucanos para dar plantões em Alagoas precede a esse ensaio de greve (que na prática nunca aconteceu). Graças ao recuo dos profissionais envolvidos, o peleguismo de alguns arrefeceu-se, e os médicos caetés e a população em geral, pelo menos desta vez, não foram mais achincalhados. É alarmante a situação dos médicos. Não adianta estar com frases de efeito quando se sabe que para muitos de nós o problema é de sobrevivência. Com efeito, não é de hoje o sub-emprego, o baixo salário. Por conta disso, há colegas que amanhecem e anoitecem sob as luzes artificiais dos hospitais, pulando de UTI em UTI. A luminosidade natural quase lhes queima a vista, de tão desabituados a esse ?luxo?. Vejam que estou me referindo a profissionais qualificados. Tampouco dá para invejar a vida dos colegas engajados no PSF. Sem qualquer estabilidade trabalhista, de repente o PSF tornou-se o refúgio dos recém-formados que não conseguiram vaga numa residência médica. Um ou dois anos depois, a opção, não raro, causa arrependimento. É que os jovens médicos sonham conseguir juntar um pouco de dinheiro que possa lhes garantir a subsistência durante os anos de vacas magras de uma especialização, projeto que todos acalentam. Sem tempo para estudar, muitos são engolidos pela engrenagem dos plantões em hospitais e ambulatórios do interior - os conhecidos sub-empregos -, casam-se, constituem família e dão adeus aos sonhos. Não é melhor a situação dos médicos aposentados. Abro um parênteses para, na figura de meu velho pai, prestar uma homenagem a todos os que exerceram essa arte com dignidade. Meu pai foi um exemplo. Aposentado como médico e professor, trabalhou até as vésperas da sua morte com o entusiasmo de um principiante. Sem levar em conta a novidade introduzida pelo atual governo ?socialista? de morder o salário dos aposentados, a crise econômica trouxe os ?médicos-vovôs? de volta ao mercado de trabalho, para, dentre outras coisas, ajudar a criar os netos. De tudo isso, ainda sobra a tristeza de saber que muitos dos anéis de esmeralda, que um dia cintilaram esperança nos anulares dos novéis médicos, jazem nas frias prateleiras do penhor da Caixa Econômica. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL