Opinião
Avan�os e recuos
Se existe consenso entre os analistas das mais variadas tendências ideológicas sobre o governo do presidente Lula, é sobre a atual política externa: ela é diferente do governo de FHC. Se em outras áreas é forçoso admitir que existe uma continuidade da política anterior, nesta questão a mudança é clara. A nova orientação brasileira defendida pelo Ministério das Relações Exteriores nos fóruns internacionais não poderia deixar de causar estranheza em nações acostumadas com outra postura da diplomacia brasileira. O claro desconforto dos Estados Unidos, manifestado através de entrevistas e artigos de Robert Zoellick (espécie de ministro do comércio exterior americano), com duros ataques à posição brasileira, deu o tom da mágoa. A repercussão aqui no Brasil foi enorme. Até membros do próprio governo se lançaram numa cruzada contra a denominada ?intransigência? brasileira nas negociações multilaterais, particularmente em relação à criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Uma ostensiva campanha foi desencadeada contra o Ministério das Relações Exteriores, principalmente contra o subchanceler Samuel Guimarães (segundo estas especulações, estaria sendo transferido para Buenos Aires, em virtude de sua posição crítica frente à formação da Alca), e em menor grau contra o chanceler Celso Amorim, acusado de ?intransigente? e ?ideológico? nas negociações. O fato é que defensores internos da proposta da criação da Alca nos moldes propostos pelo governo americano estão conseguindo transformar uma postura altiva e soberana numa postura intolerante e isolacionista. O próprio chanceler Celso Amorim teve que admitir que o governo perdeu uma ?batalha de mídia?. No afã de se defender a antiga posição subserviente que marcou o governo FHC, até o bom senso foi atropelado, como bem lembrou o ministro da Casa Civil, José Dirceu: ?Se não é permitido apresentar uma outra proposta, então não é negociação?. Enfim, o governo Lula está sentido a dureza do jogo dos grandes interesses das potências internacionais. E o mais lamentável é que existe o risco real de um recuo nessa posição autônoma e afirmativa no cenário das relações comerciais. Uma pena.