Opinião
A grande sabedoria
DOM FERNANDO IÓRIO * O rabino Kushner, ante a moléstia incurável do filho, nascido aos oito meses, com velhice precoce, escrevia: ?Não é Deus que causa a tragédia, a doença, o sofrimento. Existe uma ?aleatória? no universo e a natureza é, moralmente, cega. Um inesperado terremoto não distingue entre pessoas boas e más. Nem o câncer. Nem mesmo a Aids. Nem o derrame cerebral. Nem a progéria. Não são atos de Deus, senão acasos da natureza?. E acrescenta: ?Quando homem e mulher realizam o ato gerador da vida... nenhuma inteligência moral decide qual dentre os milhões de espermatozóides penetrará o óvulo disposto a fertilizar-se. Alguns dos espermatozóides farão com que nasça com deficiências físicas, talvez com uma doença fatal. Outros lhe darão não apenas boa saúde, senão também uma habilidade superior atlética ou musical ou mesmo uma inteligência criadora. A vida da criança será moldada... pela determinação casual daquela corrida?. (Harald Kushener ? Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas, São Paulo, 1983). Com efeito, não há criatura alguma que não esteja, diretamente ou indiretamente, subordinada à onipotência divina, até mesmo aquilo que chamamos de acaso. Só que a Onipotência de Deus não se rege pelos planos de dimensões humanas senão através de planos de alta sabedoria e de incomensurável amor que ultrapassam as categorias do conhecimento terreno. Deus dotou as criaturas de natureza e leis próprias, permitindo que ajam conforme sua índole característica, rejeitando um mundo de títeres ou bonecos, artificialmente, teleguiados, de tal modo que tudo acontecesse dentro de uma ?harmonia preestabelecida?. Deixou o Onipotente a espontaneidade de ação às criaturas, arriscando-se a tolerar as catástrofes, os males, os sofrimentos não sem um benefício, como afirma Agostinho: ?Deus julgou mais sábio tirar dos males aqueles bens do que não permitir a existência do mal?. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS