Opinião
Trag�dia da fome
HUMBERTO MARTINS * Para muita pessoas, a campanha Fome Zero, desencadeada pelo governo federal desde os primeiros dias da atual administração, tem como principal razão o fato do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ter passado necessidade alimentar quando criança. É provável até que isso seja verdade, porque o indivíduo seja verdade, porque o indivíduo que passa fome dificilmente esquece esse episódio, por mais que tenha se situado bem na vida. Mas um empenho especial para reduzir a gravidade da questão da fome, no Brasil, é algo que realmente se faz necessário. Apesar de falhas, indefinições e erros de coordenação, o Fome Zero é um louvável esforço para cicatrizar a mais grave chaga da vida brasileira. Fome existe em todas as nações, numas mais, noutras menos, mas atinge minorias. No Brasil, numa população de 170 milhões de indivíduos, 50 milhões não conseguem se alimentar regularmente, o que é um dado estarrecedor. No Nordeste, 46% das pessoas são famintas ou subalimentadas. E isso acontece numa nação que se situa entre os três maiores produtores mundiais de soja, milho, laranja, banana e galinha, entre outros alimentos. Os estudiosos das questões sociais brasileiras mencionam que há 30 anos morria um dos pioneiros da luta contra a fome no Brasil, o médico pernambucano Josué de Castro, autor de duas obras famosas, que o projetaram internacionalmente: Geografia da Fome e Geopolítica da Fome. Josué de Castro foi lembrado três vezes para o Prêmio Nobel de Literatura, ma s não chegou a receber essa famosa láurea internacional. Sua determinação e brilhantismo foram, entretanto, contribuições de importância histórica, chamando a atenção do mundo para as carências da população brasileira. O ilustre nordestino abordou características alimentares da população, comparando-as com as dos demais países. E concluiu que a fome é um fenômeno social que acontece por causa das desigualdades econômicas. Lançou por terra a tese, até então adotada, de que a fome é uma conseqüência do crescimento populacional. Segundo Josué, a concentração de renda e a má distribuição de terras são fatores decisivos, que resultam na fome. Um dos pontos altos do trabalho de Josué de Castro foi sua abordagem ao diferenciar a fome epidêmica, ocasionada por fatores específicos - uma guerra, por exemplo ? da fome endêmica, conseqüência dos hábitos alimentares de um povo, que por uma série de fatores não tem suas necessidades atendidas. Josué de Castro representou o Brasil em numerosos organismos internacionais, inclusive na Organização das Nações Unidas. Hostilizado pelos militares que controlaram o País de março de 1964 em diante, foi exilado, morrendo na França, em 1973. Apesar do tempo decorrido desde o lançamento dos seus livros, a pregação de Josué de Castro é de grande atualidade. Suas teses ajudam a entender os impasses e contradições da economia brasileira e a imperiosa necessidade não só de retomar o crescimento econômico como de fazer os frutos desse crescimento ser repartido entre a maioria da população. Atualmente, apesar do aparente esforço dos governadores e das lideranças políticas e econômicas, dois enormes obstáculos se antepõem à erradicação da fome no Brasil: o País está estagnado e a pouca atividade econômica exercida não se reflete em benefícios para a população. É uma situação com a qual ninguém de boa fé pode se conformar. Fome no Brasil, significa atraso social e econômico, simboliza, na verdade, exclusão social em face de a dominação da riqueza estar concentrada numa minoria da população, sendo fator de expressiva preocupação. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL