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Tecnologia e distor��o

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RENAN DOMINGUES LEAHY * Imagine a cena: você vai assistir pela televisão a uma partida do seu time de futebol preferido e percebe que os jogadores estão usando um novo uniforme. Ou, durante a novela, dá-se conta de que aquela atriz famosa está com um colar belíssimo. Em qualquer dos casos em que você se encaixe, é possível que surja uma louca vontade de ter o produto. Pois, daqui a alguns anos, você não vai precisar ir até a loja mais próxima para comprar o seu novo objeto de desejo. Com a TV Digital, em testes no Brasil, bastará um controle remoto para você adquirir e receber o produto em sua casa. O sistema também deve apresentar qualidade muito superior de som e imagem, recepção com maior imunidade a ruídos e distorções, além da possibilidade de se agregarem recursos multimídia, unindo, em um só aparelho, as funções de televisor, rádio e processador de dados. No entanto, como toda novidade tecnológica, a TV Digital ainda é muito cara. Tanto que o mesmo efeito foi sentido nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e em várias outras regiões onde já foi implantada. O custo dos equipamentos e da tecnologia foi tão elevado que boa parte da população preferiu continuar com suas TV convencionais. Em março, a Anatel divulgou a relação dos 1.840 canais digitais viabilizados no Brasil. Alagoas ficou com apenas 18 deles, 13 em Maceió e 5 em Arapiraca. Mas se, em países ricos, a população já mostrou que está satisfeita com a qualidade da TV analógica e que não está disposta a arcar com os preços do sistema digital, freando a expansão do modelo, é difícil acreditar que, aqui, terá um futuro promissor em curto prazo. É verdade que os brasileiros têm verdadeira paixão por tudo o que é lançamento e que ser um dos primeiros a ter uma novidade ainda é sinônimo de status. Mas o País continua sendo um dos que apresentam as maiores desigualdades sociais do planeta, e poucas pessoas teriam acesso à TV Digital. Como tudo o que sobrevive de mercado, o sistema não poderá se restringir a uma pequena gama de consumidores. O debate envolve, ainda, a exclusão digital. A maior parte da população ainda não tem acesso a equipamentos de informática. Em 2002, de acordo com o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, o Brasil ocupava a 29ª posição no ranking dos países mais informatizados, com níveis semelhantes aos da África do Sul, da Índia e de países do Leste Europeu. A TV Digital representa um avanço sensível em termos de tecnologia, mas um encolhimento da camada social incluída digitalmente. A Anatel argumenta que o sistema só será aprovado se houver algum dispositivo que converta uma TV convencional em digital, a preço acessível. Mas isso não resolveria o problema, porque os equipamentos tradicionais não foram criados para receber tecnologia digital. Os resultados seriam, seguramente, decepcionantes. É indispensável tomar como exemplo as experiências de outros países e analisá-las, cuidadosamente, face à realidade brasileira. Pois não adianta dar um passo muito largo se o que está a nossa frente é um abismo. (*) É ADVOGADO E FORMANDO EM JORNALISMO

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