Opinião
Desigualdades regionais
JOSÉ MEDEIROS * Os comentários a seguir poderão ser simples devaneios e vôos da imaginação. Realidades cáusticas muitas vezes ultrapassam a ficção. Assim começa a história: ... e o Criador produziu um país cheio de diversidades, de florestas tropicais, de rios navegáveis, de regiões onde predominam ora o solo de massapê bem apropriado para o cultivo de cana-de-açúcar, ora o extremo meridional de grandes planícies férteis e de clima ameno. Acrescentou-lhe belíssimas paisagens, milhares de quilômetros de praias e riquezas sem par. Povoou essa terra com uma gente inteligente e trabalhadora capaz de responder a muitos desafios; nela depositou toda sua confiança. Mas, há sempre um mas, resolveu, do alto de sua grandeza, estabelecer uma condição: como as regiões eram bem diferentes em clima e diversidade, vislumbrou que os resultados do povoamento não seriam iguais; determinou que essa população tivesse entre os objetivos principais vencer as desigualdades regionais e sociais e construir de maneira uniforme uma pátria definitiva. Quinhentos anos depois, lembrou desse lugar e para ele voltou seus olhos. Espantou-se com o que viu: um País injusto, com milhões de desempregados, certas regiões prósperas, outras medianas e algumas na mais absoluta pobreza. O que mais lhe chamou a atenção foi a indiferença e a ausência de preocupação dos governantes, ao longo do tempo, em superar os desníveis existentes. Detectou perigosos embates por conta de escassos subsídios e fundos de desenvolvimentos regionais concedidos. Apurou melhor a vista e, num relance, teve uma visão histórica do que teria acontecido. Os estados do Sul e do Sudeste haviam sido beneficiados por um clima ameno, investimentos maciços e continuados, industrialização, imigração estrangeira e redobrado apoio federal. E mais ainda: os governantes desse País haviam saído quase sempre de regiões mais desenvolvidas, do eixo do café com leite, e, através da indicação de ministros da área financeira, jamais abriram mão da chave do cofre. Os estados construídos fora desse eixo eram obrigados a lutar desesperadamente para conseguir indispensáveis investimentos. Empenhavam-se numa peleja titânica pela imparcialidade dos critérios de distribuição de verbas públicas e pela descentralização de ações do poder maior. ? Será que haveria possibilidade de uma efetiva mudança de rumos? O Criador não quis interferir diretamente nesse quadro de tão diversos posicionamentos. Todavia, formou sua opinião sobre esse assunto e refletiu: ?Tratar com igualdade desiguais é uma forma de manter desigualdades?. Resolveu dar um conselho aos prejudicados: Lutem! Não abram mão de seus próprios direitos! Construam uma agenda regional comum e sistematizem esse esforço! Defendam a tese de que é necessário olhar o País como um todo. Não admitam a formação discriminatória de grupo denominado de G-7, (rico e próspero), e o G-20 (com o restante dos estados que não participem dessa mesa farta). Insatisfeito com o que viu, quem sabe o Criador não pensou em fechar a janela para esse País de tantas desigualdades? (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE