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Nº 5710
Opinião

Os pecadores

Marcos Davi Melo * Era uma bela e morna manhã de meio de verão, aquela segunda-feira de agosto. Os jardins monumentais estavam na plenitude do verde, que ainda hoje faz a vista do mais arguto espectador se embevecer deliciada. As límpidas fontes servia

Por | Edição do dia 29/03/2002 - Matéria atualizada em 29/03/2002 às 00h00

Marcos Davi Melo * Era uma bela e morna manhã de meio de verão, aquela segunda-feira de agosto. Os jardins monumentais estavam na plenitude do verde, que ainda hoje faz a vista do mais arguto espectador se embevecer deliciada. As límpidas fontes serviam de bebedouro tranqüilo aos sagazes pássaros e esquilos. Versalhes por fora era só placidez. Dentro, naquela manhã de 3 de agosto de 1789, 945 homens se debatiam acaloradamente no que seria a Declaração dos Direitos Humanos e de Cidadania. Embrião da cidadania universal de ontem, de hoje e de sempre. Os parlamentares ainda estavam entorpecidos, tentando entender os discursos contraditórios e “metafísicos” de Malouet, do filósofo Mounier e do conde Antraigues, quando um padre subiu a tribuna para gaguejar o seguinte pedido. “Peço tolerância desta assembléia para um tímido principiante que está falando diante de vós pela primeira e, certamente última vez. Não devemos estabelecer objetivos muito elevados para nós, e eu gostaria de vos falar sobre um assunto relacionado com minha linha de trabalho...” Neste momento os jornalistas que registravam as atividades da Assembléia Nacional francesa, como o do Moniteur Universal, relatam que “risos altos irromperam na assembléia”. O padre titubeou, bastante desnorteado diante da platéia, exatamente como admitiria ao se apresentar, depois prosseguiu com a proposta de que a Assembléia Nacional se dedicasse à religião, com um altar e um capelão num gabinete vizinho, “a quem cada parlamentar, antes e depois das atividades legislativas, poderia confessar seus pecados”. Novamente, os jornalistas anotaram que neste exato momento “o riso irrompeu”. Não tendo terminado o discurso, o padre prosseguiu sem mais se perturbar, apesar de a assembléia estar se divertindo com suas “sugestões espirituais”. Depois de alguns instantes, em meio a gargalhada geral, o presidente da assembléia interrompeu o orador e oficialmente encerrou o que se tornara uma longa sessão, deixando o padre aturdido sozinho na tribuna. Suas proposições mal tinham sido ouvidas, muito menos aceitas. Mas o corpo político riu e muito. Relatam os historiadores que nas atividades da Assembléia Nacional francesa, realizadas no anfiteatro Salle de Menus-Plaisirs de Versalhes, no período entre maio de 1789 e setembro de 1791, portanto, um espaço de tempo de pouco mais de dois anos, registraram-se 408 episódios de risos coletivos, sendo o do padre, para um pecador dos trópicos, o mais emblemático. Ouso registrar este episódio, colhido entre tantos que aprecio da história francesa, possivelmente por estarmos na Semana Santa, quando os nossos parlamentares gozam justo e prolongado repouso e a plebe descarrega as suas mágoas malhando os judas aí pelas esquinas. Todavia penso, que caso algum desavisado clérigo repetisse na tribuna do parlamento tamanha ousadia: sugerir que cada vez que um parlamentar entrasse e saísse das suas atividades legislativas, confessasse os seus pecados, não seria igualmente vítima da gozação e da zombaria generalizada? Sem exceção, apesar das múltiplas legiões de representantes das diversas igrejas naquele nada santificado santuário? Na França, onde o humor dos cidadãos avinagrou mais do que vinho ordinário antigo e mal conservado, possivelmente o servo de Deus nem ameaçaria subir a tribuna. Seria enxotado sumariamente, sob peçonhentas exortações que só os franceses sabem fazer. Nos trópicos, como não existe pecado abaixo da linha do Equador, ninguém ousaria passar semelhante vexame, pois veladamente, a iníqua pureza caminha paralela e irmanada com o mais puro, pomposo e encoberto deboche tropical, que só espera a ocasião para explodir, mesmo que da forma aparentemente mais sisuda. E que orem e rezem silenciosamente por todos nós pecadores irresolutos, os que ainda têm fé e alguma real, íntima e subsistente caridade e solidariedade coletivas. (*) é médico

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