Opinião
Geruza Malta
TEOMIRTES DE BARROS MALTA * Domingo, treze de outubro, a Banda da Polícia Militar, na Praia de Ponta Verde, solicitou um minuto de silêncio em homenagem à memória de Geruza Malta, aquela que promovia alegria, nas manhãs ensolaradas naquele espaço da cidade. Às vezes não compreendemos bem o que de repente nos atinge. Há uma fatalidade tremenda que nos deixa pensativos, sem querer aceitar os fatos. Refiro-me à morte de minha cunhada Geruza, há poucos dias. Saiu pela manhã com uma amiga, como sempre fazia, para fazer o costumeiro caminhar pela orla marítima da Pajuçara. Voltando para casa, ao tentar atravessar a avenida, um carro em alta velocidade atingiu-a, arrastando-a por vários metros. Geruza ficou mutilada, passando alguns dias na UTI, mas sem jeito. Todos nós sabíamos disso, o caso havia sido grave. Entretanto, era difícil de aceitar. Ela era uma pessoa bonita, amava demais a vida. Gostava de dançar. Não se incomodava de dar passos pelo salão, sozinha, nas festas a que comparecia, já que seu marido não compartilhava muito de sua alegria. Apoiava-se apenas em sua bengala, que já a acompanhava há alguns anos. Tinha uma personalidade forte, mas era sobretudo generosa. E até demais. Nunca se preocupou com o que pensassem a seu respeito. Haveria algum mal nisso? O importante era a música, a dança, estar de bem com o mundo. Foi o que me disse um dia. Quem a visse tão cheia de vida, dançando aos domingos ao som da banda da Polícia Militar, na praia de Ponta Verde, naquele trecho onde conseguira cimentar e fora colocado uma placa com o seu nome Geruza Malta, não poderia jamais avaliar sua coragem em acontecimentos passados! Em 1950, a política fervilhava em Mata Grande. Duas facções políticas concorriam as eleições em 3 de outubro daquele ano. De um lado, o candidato Moacir Peixoto (PSD), apoiado pelo governador Silvestre Péricles, que estava terminando o seu mandato. Do outro, Antonino Malta, irmão de Geruza, pela UDN, cujo candidato a governador era Arnon de Mello. No dia da eleição, houve, então, um sério tiroteio. Moacyr Peixoto, que queria ganhar as eleições a todo custo, mandou trazer pistoleiros de Pernambuco, de comum acordo com o governo da época. Então a chacina de Mata Grande aconteceu. Nela morreram um irmão, dois sobrinhos de Geruza e um empregado da família. Geruza, na época, uma bela jovem de vinte e cinco anos, enfrentou o tiroteio para salvar alguns dos seus, ir em socorro deles, o que não conseguiu. Foi baleada numa perna e teve de recuar. Entretanto, coragem não lhe faltou. Creio que isso pesou bastante em sua cabeça por muito tempo. Entretanto, tentou superar e conseguiu. Era uma pessoa otimista, não cultivava tristezas. Extremamente generosa, não fazia diferença entre as pessoas. Gostava de ajudar, da forma como podia. Como candidata a vereadora anos atrás, conseguiu mais de novecentos votos. Para uma mulher sem tantos recursos, isso foi importante. Casada com Rubens Rocha Cavalcanti, teve filhos, enfrentou uma situação difícil no início. Mas batalhou, venceu. Vivia bem, feliz, admirada por muitos. Eleita há dois anos rainha da melhor idade, isto lhe dera uma grande alegria. Em apenas alguns instantes, tudo mudou. O fatal acidente ceifou sua vida. Seu marido, seus filhos ficaram inconsoláveis. Deixa-nos um grande vazio no qual tentamos ocupar com a imagem de sua beleza, de sua bondade. Coisas que ficam eternas no tempo. Tudo isso foi Maria Geruza Malta Rocha, uma grande mulher! (*) É ESCRITORA