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Cloroquina e a pandemia

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Durante a epidemia de Gripe Suína nos EUA, em 2009, agentes de saúde instruíram as pessoas para lavar as mãos com água morna na suposição de que isso matava vírus. O FDA divulgou normas para os restaurantes exigindo água quente para os banheiros. Depois, pesquisas bem conduzidas mostraram que aquela temperatura da água não fazia a menor diferença, o que importava mesmo era o tempo de lavagem das mãos: lavar as mãos com água quentinha era mais gostoso e demorava mais. Um engano bobo chegou a mudar as diretrizes federais que afetam milhares de pessoas, e criou- se uma confusão temporária na ciência.

Os estudos atuais sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina ainda são incompletos e não têm resultados confiáveis, seja a favor, seja contra. Apresentam muitos fatores de confusão. Cloroquina é usada com sucesso contra malária e doenças autoimunes. E conhecem-se os seus efeitos colaterais danosos para o coração, fígado e olhos. Ela funciona bem em tubos de ensaio, mas quando usada em animais ou pessoas, onde o ambiente biológico é bem muito diferente, ela fracassou. Foi utilizada na Influenza, no Dengue, na Zika, Nipahvirus, Ebola e fracassou. O seu uso em macacos acometidos por Chicungunha, demonstrou que a cloroquina aumentou a contagem de vírus nos animais. Pode ser até que, pela primeira vez na história da Medicina, a cloroquina seja eficaz contra um vírus. Todos torcemos pela cloroquina, mas torcer por um remédio não é como torcer por time de futebol. E a cloroquina não trata ansiedade.

Existem várias pesquisas científicas sobre o uso da cloroquina contra a Covid-19. Em Nova Iorque, estudos de grandes hospitais que estão atendendo pacientes com o novo coronavirus mostram evolução semelhante com ou sem o uso desse remédio. Nesta semana, uma coalizão de grandes e respeitados hospitais brasileiros, liderados pelo Hospital Alemão Osvaldo Cruz, com a participação do Einstein, do Sírio e Libanês e mais 47 grandes hospitais nacionais, instalou um Estudo que pretende incluir 1.300 pacientes internados com Covid-19 que serão randomizados para 650 deles tomarem a cloroquina e 650 não tomarem. Os critérios de inclusão nesse estudo serão ter acima de 65 anos e pelo menos um fator de risco: cardiopatia, hipertensão, diabetes, imunossupressão. Espera-se que em 60 dias se chegue a alguma conclusão, mas um comitê de ética, autônomo, o acompanhará proximamente e poderá interrompê-lo caso existam evidências científicas que o justifiquem. Muito pouco se sabe atualmente sobre o novo coronavírus, inclusive se a pessoa infectada e recuperada, de fato, se torna imune.

Esse seria o princípio do “Passaporte de Imunidade”, que o ministro Guedes anseia. Os infectados teriam anticorpos que os protegeriam (como no caso do sarampo) para todos os vírus das suas várias linhagens? Tampouco se sabe quanto tempo duraria e quão intensa seria essa imunidade. Existem, felizmente, várias outras drogas sendo testadas pelo mundo, a maioria remédios contra o HIV. No Brasil, a Fiocruz realiza testes promissores em camundongos com o atazanavir, um agente anti HIV . Esses remédios estão sendo testados na serenidade dos laboratórios, o que não pode ser feito com a cloroquina, submetida a imensa polêmica desde que o presidente da República a elegeu como a solução para essa gravíssima pandemia. Mesmo nessa situação dramática, a ciência precisa seguir suas premissas básicas, entre as quais está primeiro o remédio não causar maior mal que a própria enfermidade.

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