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Desejos e a vida

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EDUARDO BOMFIM* Pessoalmente, tenho discordâncias com o núcleo fundamental do pensamento do filósofo, escritor e articulista italiano Norberto Bobbio. No entanto, não há quem negue a abrangência enciclopédica e fecundidade da sua capacidade intelectual. Seguramente, ele é um dos maiores pensadores da atualidade. Ao declarar que é preciso abrir caminhos e não fechar portas ao conhecimento, revela um dos traços fundamentais de sua produção, e também do pensamento de Marx, muito embora Bobbio não seja um marxista. Em outra de suas premissas, indica a necessidade da inquietação nas pesquisas, o aguilhão da dúvida, a vontade do diálogo, o espírito crítico e o sentido da complexidade das coisas. Mais uma vez, Bobbio encontra-se em consonância com a dialética e a ciência marxista. Evidentemente que a ciência de Marx e seus continuadores mundo afora, não tem como pressuposto básico a dúvida. Nela, existem conceitos e formulações comprovadas, definitivas, que podem variar conforme o desenvolvimento contínuo e contraditório da sociedade, mas os seus fundamentos persistem. Afinal, a ciência desenvolvida por Marx não é um dogma, mas um instrumental de estudo e ação, aliás, indissociáveis. Seus textos e obras excedem o imediato. Possuem largueza e profundidade. Abordam questões tais como a governabilidade nas sociedades, em especial as complexas, a relação entre eleitores e eleitos, sobre o pluralismo, as relações entre os meios e os fins, tema recorrente na obra de Maquiavel. Por sinal, este último, um gênio apaixonado pela unificação da Itália, transformou-se nas mãos dos espertalhões em um vulgar oportunista, um malandro que ensina a outros malandros a ?arte? de manter o poder às custas da esperteza e golpes baixos. Não merece tais seguidores. Penso em Bobbio e olho para o momento atual, as virtudes e vicissitudes das esquerdas que possuem em Marx o grande referencial na elaboração dos itinerários das transformações que exigem as estruturas do País e, acrescento, mundial. Nós, da esquerda, precisamos aceitar que vivemos um contínuo processo de amadurecimento. O marxismo não possui fórmulas mágicas e muito menos é um tratado enrijecido, acabado. Nele, não existe nenhuma tábua dos Dez Mandamentos. É uma ciência para a elaboração e ação revolucionária, transformadora. Talvez seja por este motivo que pessoas valorosas como Fernando Gabeira, declarem-se perdidas em seus sonhos. Teriam se transformado em fantasias distantes da realidade concreta. Outros, embalavam-se na perspectiva de que vitorioso, Lula promoveria uma ruptura sistêmica avassaladora. Desejos. Porque um outro grande teórico do marxismo, Lênin, vaticinava que devemos sonhar, mas realizar escrupulosamente nossos sonhos, baseados na realidade concreta, agindo sob as contradições que nos rodeiam. Não perceberam que este governo é uma frente ampla, complexa, contraditória, cheia de projetos que se chocam permanentemente. Desde a campanha eleitoral. Ademais, o núcleo central deste governo jamais acenou com um projeto revolucionário e mesmo que assim fosse, a realidade objetiva nos faria sonhar um sonho de uma altitude mais baixa. Além disso, se observarmos a história política da luta transformadora, de processos do tipo que pretendem os defensores das rupturas, e eu sou um deles, perceberemos que todas as revoluções foram dramáticas e cheias de idas e vindas, situações trágicas que muitas das vezes conflitavam com os projetos pensados, e até com amplos segmentos do povo, durante largo tempo. O que não significa que estavam equivocados. É preciso ter sempre em conta que os adversários também jogam e a vida é mais complexa que a teoria. Cabe-nos a escolha, além da coerência sempre presente ao lado dos princípios, da causa indeclinável. Ou bater em retirada atrás do sonho, perfeito, inefável. * É ADVOGADO

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