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Opinião

Dona Marta Suplicy

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JOÃO ALVES FILHO* A Nação assistiu perplexa às manifestações preconceituosas da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, sobre o povo nordestino. Reação leviana, ante a atividade dos senadores, que exerciam o direito de exigir tratamento equânime da União, reservados aos demais entes federados, às demandas da prefeitura paulista. As grotescas declarações insinuaram um ?preconceito? dos nordestinos em relação aos paulistas, originárias de um sentimento freudiano de culpa, causado pela reação inversa dos pensamentos discriminatórios prevalecentes no círculo do ?grand monde? paulista quanto à gente nordestina, tratada como inferior. Felizmente, o preconceito é restrito à parte do ?establishment?, não sendo compartilhado pela maioria do laborioso povo de São Paulo. Como sei que dona Marta, face ao deleite de uma vida aristocrática, não tem tempo para se voltar para ?coisas menores?, apresento-lhe uma síntese da participação do Nordeste na formação da riqueza paulista. Dispenso comentários sobre a saga dos imigrantes nordestinos, lembrando que a metrópole que ela dirige abriga o maior percentual populacional de nordestinos de todas as capitais brasileiras, e que seria impossível promover uma rápida industrialização sem a expressiva mão-de-obra imigrante. Há um fator mais relevante relativo à imensa colaboração do Nordeste para a industrialização de São Paulo. Na década de 30, prevaleceu a visão de estadista de Getúlio Vargas, de que o Brasil não teria futuro se permanecesse maciçamente rural, sendo imperiosa sua industrialização. Ele constatou dois óbices: o de que não havia poupança privada suficiente para uma alavancagem industrial, e o de inexistirem reservas cambiais para importar equipamentos imprescindíveis. Partiu para duas estratégias. Para superar a primeira dificuldade, optou pelas estatais bancadas pela poupança pública. A segunda foi se valer do excesso de dólares proveniente da única região altamente superavitária na balança comercial com o exterior: a Nordeste. Como era impossível industrializar simultaneamente todo o País, concentrou o processo no Sudeste. Outro expediente foi a draconiana política tributária, beneficiadora da nova região industrializada, em detrimento das consumidoras. A partir de então, seria deflagrado um processo onde duas regiões seguiriam roteiros inversos: o Sudeste, grande favorecido, e o Nordeste, grande sacrificado. Nesse contexto, o maior beneficiário seria São Paulo, que ficaria deficitário por décadas ininterruptas, pela necessidade de importar equipamentos. O erro não foi de estratégia, alternativa única para aquela fase inicial do modelo desenvolvimentista, mas de perenização até nossos dias, gerando a maior desigualdade regional do planeta, retratada pela diferença de renda entre São Paulo e o Maranhão, por exemplo, que chega a quase oito vezes. Pois bem, dona Marta, os nordestinos estão orgulhosos de terem sido essenciais ao progresso de seus irmãos paulistas. Entendem, entretanto, que é inadmissível que não seja reconhecida sua inestimável cota de sacrifícios para o desenvolvimento e sejam alijados cruelmente de todas as prioridades nacionais, como se fossem uma sub-raça, quando se sabe que no Nordeste estão as raízes da nacionalidade brasileira. Agora mesmo, outros membros do ?establishment? de dona Marta tentam impor uma reforma tributária perversa, que seguramente aumentará a pobreza do Nordeste, enquanto negam até mesmo a criação de um Fundo de Desenvolvimento Regional, para minimizar as conseqüências dessa reforma. O ministro da Fazenda alega que o governo não pode criar o Fundo, justificando que tal concessão seria prejudicial ao objetivo de manter o superávit primário acordado com o FMI. Recentemente, em reunião com o presidente Lula e os governadores, tive oportunidade de indagar ao ministro sobre o sofismático argumento, lembrando-o de que o Brasil irá pagar, só de juros da dívida externa, 215 bilhões de dólares este ano. Bastaria disporde 1% do total desses juros, os maiores do mundo, para garantir a reivindicação dos estados pobres. O que se percebe, com as insistentes negativas do governo para resolver a grave situação atravessada por estados e municípios pobres do País, é que, como eu suspeitava, e como alertou, em sua edição da última quarta feira, ?O Estado de São Paulo?, a resistência do governo em flexibilizar o projeto tem um viés que vai além da questão financeira. A reforma seria muito mais um projeto de poder, do que propriamente um projeto de governo. Segundo tal conclusão do Estadão, ?os líderes e articulistas do Planalto concluíram que é politicamente inconveniente pôr dinheiro nas mãos de governadores ? a maioria de partidos de oposição ? neste momento de pré-campanha na disputa pelas prefeituras?. É estarrecedor que um verdadeiro crime de lesa pátria contra os interesses do Norte, Nordeste e Centro-Oeste esteja sendo cometido por conta de mesquinhos interesses eleitoreiros. (*) É GOVERNADOR DE SERGIPE

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