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Opinião

Ainda bem

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MARCOS DAVI MELO* Ainda bem que esta semana está terminando. Nela, entre outras, duas questões desagradáveis se destacaram na mídia. Uma, o da tentativa de se retirar recursos da saúde (embora camufladamente para o Fome Zero) e a outra, a malfadada viagem da Benedita para a Argentina. Benedita, paga um tributo desproporcional à besteira que fez, em razão de ser negra, em primeiro lugar; de origem modesta, em segundo; e evangélica, em terceiro. Sem desprezar o aspecto partidário, com suas cobranças e o culto a sua aura de intocabilidade moral. Rita Camata, branca e bonita, por pecado similar, não pagaria tal preço. Os notoriamente insuficientes recursos da Saúde, que têm sido motivo de repetidas subtrações pelos ministérios da Fazenda e agora Planejamento, por tantos governos quanto são os que ocuparam o Planalto, são mais uma vez motivo de cobiça e guloso remanejamento. Apesar da agravada crise na saúde, mudam os homens, mas a insensibilidade em relação ao setor só se altera em épocas eleitorais. Ainda bem que existem as realidades paralelas e elas se manifestam de amenas formas. Uma delas caiu-me generosamente a mão na forma de um calendário para o ano de 2004. Não um simples calendário para se ver os dias e se marcar com sofreguidão os poucos feriados previstos. Ou com mulheres peladas e apetitosas para divertir os clientes das oficinas de automóveis. Mas um calendário afetivamente primoroso. É o calendário ?Engenhos e Casas-grandes das Alagoas? de autoria do professor Douglas Apratto, com fotos de Leda Almeida e design de Tiago Amaral. Em sua capa já mostra junto com as ruínas do engenho Anhumas, em União dos Palmares, um trecho da poesia ?Canto da Minha Terra?, de Jaime de Altavilla, onde o poeta proclama que traz a ?terra nos olhos, nos ouvidos, no olfato e ela cheira a mel quente dos engenhos e tem o gosto ardente dos canaviais?. É surpreendente o número de casas-grandes, engenhos e igrejas que estão ainda em boas condições de conservação. Como são belas e como formam pares perfeitos com as poesias e cantigas (de Ledo Ivo, Jorge de Lima e outros feiticeiros) que cada uma delas traz consigo. Dir-se-ia, sem exageros, que nasceram e cresceram juntas, tanto se complementam as imagens e os textos. Douglas Apratto é um primus inter pares. Incansável pesquisador, concebe seus trabalhos, tendo como matéria-prima as nossas mais genuínas tradições e os nossos mais apreciados mimos culturais. Assim, entre tantas outras produções, deu-nos uma deliciosa história de Alagoas em quadrinhos, lavrada em conjunto com o talentoso Enio Lins. Ainda bem, este calendário mostra que apesar de tudo, a nossa cultura resiste na perseverança dos que a amam e respeitam e isto é um estímulo. Precisamos desta força para resistir aos abusos e insensibilidades que nunca cansam de querer atropelar os sempre atônitos contribuintes da Viúva. (*) É MÉDICO

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