Opinião
E o desenvolvimento?
Aparentemente contraditório, o resultado das contas públicas apresentadas pelo presidente do Banco Central ao Congresso Nacional é de uma lógica cartesiana. Para pagar os juros da dívida, o governo corta gastos públicos visando alcançar o já famoso ?superávit primário?. Como os recursos ?economizados? não são suficientes, o governo lança, no mercado, títulos públicos para complementar o que falta (a taxas de juros são elevadas para atrair os investidores). Assim é que o principal responsável pelo desempenho das contas públicas, a taxa Selic (administrada pelo BC) manteve-se na média de 18%, entre janeiro e setembro ? enquanto no mesmo período do governo de FHC, fora de 13,5%. Os recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida pública para este ano (segundo o presidente do BC, Henrique Meireles) estão estimados em R$ 153,9 bilhões, valor 35% maior do que o do ano passado e correspondente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Olhando para o futuro, o que se pode esperar do desempenho da economia que começa a esboçar uma reação, mas que ninguém fora do governo aposta que se mantenha sustentável por mais tempo, se baseada apenas na expansão do crédito e na antecipação de compras de fim do ano, como se dá hoje? A resposta será dada em breve, após a provável assinatura de um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O discurso oficial é de que o Brasil conseguirá barganhar um acordo mais flexível, que permita ao país aumentar o montante de recursos destinados aos investimentos públicos. Porém, seria de bom alvitre não se comemorar antecipadamente um afrouxamento nas exigências que o FMI fará em troca de um novo empréstimo ao Brasil. Algumas concessões serão feitas, dado o precedente aberto pela Argentina, mas convém não esperar concessões substanciais, inclusive porque um dos principais negociadores brasileiros, o diretor de política monetária do BC, defende a manutenção do arrocho fiscal no próximo ano, tão do agrado do FMI. Repetiremos em 2004 o ano 2003? Ou melhor o período 1995-2003? Estaremos a caminho de toda uma ?década perdida??