Opinião
Lembrar para viver
DOM FERNANDO IÓRIO * O autor do Eclesiastes (3,17) procurou, certa feita, expressar sentimentos básicos, no fluir natural da vida: ?Há tempo para tudo, para cada coisa, sob o céu. Tempo para nascer, tempo para morrer; tempo para plantar e colher; tempo para chorar e rir; tempo para sofrer e dançar; tempo para calar e falar?. Importante é o equilíbrio criador entre essas potências energéticas a caminho do transformar-se. Não se trata de um equilíbrio qualquer, mas do dinamismo de forças, não de fraquezas. Quase sempre confundimos equilíbrio com timidez, moderação com mediocridade, prudência com pusilanimidade. No final de contas, faz-se mister ritmar o compasso, no equilíbrio das forças. Assim, o passado. Passado não é tanto o que passou, senão o que não passou. É o que permanece em nós do que passou. Se o passado, de todo, passou, é que morreu, não há evocação que possa despertá-lo da sua imobilidade marmórea. É o passado morto, o passado que passou. Há, entretanto, aquele passado que permanece no inconsciente, sob a erva rasteira; porventura, um dia, limpemos o terreno, reaparecerá a trilha, como dantes. Torna-se, desde então, um passado vivo em nosso presente, após tão esquecido. Mas existe precioso passado, nunca esquecido, vivendo conosco, a cada momento, falando em voz alta, dentro de nós, no escrínio de nosso ser; sim, porque nada do que foi nosso jamais se perde, continuando a agir em nós para o bem ou para o mal, em forma de saudade. O interessante é que a saudade não é apenas um terno sentimento de doçura, senão também algo de paixão entorpecente. Felizes quantos vivem e gustam a poesia profunda da saudade. Amargurados os que se deixam por ela entorpecer. Precioso estímulo é a saudade, porque possamos ter, entre nós, as virtudes e os sentimentos de quantos se ausentaram do itinerário da nossa vida. Sem dúvida, triste solitário e escravo do presente é o ser humano sem saudade. Torna-se dividido, separado, desmemorizado de um precioso passado que poderia ser a riqueza da vida. Feliz de quem alimenta uma saudade sadia, porque tremenda loucura é deixar-se devorar pela saudade que corrompe, que envenena, que torna a vida sem sentido. A verdadeira saudade é força viva capaz de tornar o passado um delicioso presente, com novas razões para viver e caminhar. O dia dos mortos evoca a verdadeira saudade, lembra as virtudes, as atitudes e os momentos lindos de quantos partiram, ainda que, tragicamente, após terem plantado jardins de infinitas rosas ao longo da caminhada. Os cemitérios que visitamos, no dia dos que adormeceram em Cristo, fundam-se na certeza de uma qualquer sobrevivência de quantos partiram. Na cultura secularizada reduz-se o cemitério a um sentimento de saudade e de veneração. Na cultura cristã, lembram os cemitérios o lugar onde repousam os restos mortais dos falecidos, na espera da ressurreição gloriosa. O verbete cemitério, na sua origem grega ? Koimeterion ? evoca a idéia de dormitório, onde os filhos de Deus descansam esperando o despertar para a vida eterna. Cada resto mortal está a ensinar-me: ? hodie mihi, cras tibi? ? ?Hoje para mim, amanhã para ti?. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS