Opinião
Cultura e Imperialismo
EDUARDO BOMFIM * O problema da intensa luta de idéias, presente sistematicamente em todos os momentos da história da luta de classes, assume na atualidade um patamar extremamente elevado, nas discussões sobre o que se denomina, enfaticamente hoje, bem mais que nos últimos anos, como ?Políticas Públicas Culturais?. Acredito que o fenômeno não é absolutamente fortuito ou em decorrência de algum tipo de modismo, destes que são impostos aqui e ali, pautado pela grande mídia, sempre a serviço das classes dominantes. Reflete uma situação objetiva, conseqüência de alterações na realidade internacional e brasileira. Modificações estas incompletas, indefinidas. Presenciamos, na atualidade, um significativo aumento de resistência dos povos, das nações, contra a imposição sempre pela força, inclusive militar, como recurso aos recalcitrantes, por parte das grandes potências sob a liderança dos EUA. Em meio ao grande debate entre o império e seus limitados aliados, e aqueles que se opõem e se defendem de todas as formas e maneiras, dos recursos, sofismas e catilinárias, visando justificar o injustificável, a agressão generalizada, tendo como pressuposto o domínio e hegemonia global, trava-se uma batalha sempre cedentes. É evidente que a ofensiva ainda pertence ao campo dos novos senhores do mundo. Temos aqui, intensos debates teóricos, políticos, morais e culturais. Os EUA têm sido recorrentes, na justificativa de suas ações agressivas, em teses que vão desde o seu papel de liderança natural, ?constitucionalmente divina?, na defesa dos ?sagrados valores ocidentais?, até a sua ?vocação? discretamente disfarçada, dos seus valores baseados em teses sobre uma etnia predestinada à superioridade. Daí a justificativa da guerra do ?bem contra o mal?, ou a clara explicitação, bem recente, por parte de um general americano, de que em última instância o que acontece no Iraque e países vizinhos é fundamentalmente o confronto entre o mundo cristão versus concepções religiosas primárias que precisam ser derrotadas a qualquer custo. Uma espécie de nova cruzada contra os infiéis. Todos sabemos as verdadeiras intenções e objetivos que se escondem por trás destes sofismas desgastados. Mas não nos iludamos. Existe toda uma máquina azeitada e poderosa, impulsionando um combate pelos ?corações e mentes?. O multiculturalismo, por exemplo, visa espalhar pelo mundo que a questão central na atualidade não reside entre opressores e oprimidos, sejam nações ou segmentos da população. Mas a premência de substituir o justo combate contra a discriminação e perseguição racial, pela necessidade de, por dentro do próprio sistema opressor, oferecer a uma minoria elitizada dos excluídos, a possibilidade gloriosa de ascender ao paraíso do poder dos exploradores. Para tanto, possuem instrumentos midiáticos, organizações da sociedade civil, universidades etc. A tese falida, desmoralizada, sobre o ?fim da história?, o estertor das fronteiras nacionais e um livre mercado equânime, consistiram em catilinárias repetidas à exaustão, mais que sufocante. Não prosperaram. O conceito de uma visão enciclopédica, universalista, preservando os valores, características e identidades das sociedades constituídas em pátrias e seus estados, sofreu um bombardeio ideológico, ao ponto de quem se opunha ser considerado ?dinossauro? e calúnias semelhantes. A máxima de ser patriota e internacionalista, duramente combatida, inclusive por setores das esquerdas. Desta maneira, para que resgatar as tradições populares, entender a origem da formação das nações, rebuscar, revolver a trajetória dos intensos confrontos que constituíram as diversas nacionalidades, inclusive a brasileira? Se tínhamos passado a um período de uniformidade superior, de caráter internacional, nos níveis econômico e cultural... Foram mais uma vez derrotados. Restou a força bruta, sem maiores explicações conceituais. Eis o período em que vivemos. Portanto, apesar da incompreensão de uns ou outros, a peleja cultural é parte inseparável, principalmente nos dias atuais, da resistência política, militar, econômica, patriótica. Afinal, como dizia Ho Chi Min, é o ser humano que decide em ultima instância, o futuro dos povos. Cultura não é, portanto, sinônimo de especialização ou coisa de iniciados. Trata-se de uma indeclinável trincheira de uma nação, elemento vital de resistência dos povos em busca do seu futuro social justo e soberano. (*) É ADVOGADO