Opinião
VIDAS IMPORTAM
Os últimos dias têm sido marcados por protestos nas ruas dos Estados Unidos, nos quais manifestantes pedem justiça pela morte de George Floyd, um segurança negro, de 46 anos, morto cruelmente no dia 25 por um policial na cidade de Minneapolis, estado de Minnesota. Imagens do momento em que Floyd é algemado, jogado ao chão e asfixiado pelo policial foram amplamente divulgadas pelas redes sociais e se tornaram o estopim para uma série de protestos que se espalharam pelo país.
As manifestações tiveram repercussão no resto do mundo, fazendo ressoar o slogan “vidas negras importam” e um grito contra o racismo. No Brasil, não há como não deixar de fazer referência ao caso do menino João Pedro, 14 anos, que levou um tiro fatal na sua casa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, durante uma ação conjunta da Polícia Civil e Polícia Federal no mês passado. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos têm um passado histórico de escravidão, opressão e racismo, mas há particularidades no contexto histórico. Nos EUA, após a escravidão, os afro-americanos passaram a ser identificados como negros e pelo processo de segregação, fatores que se tornam determinantes na formação da identidade negra e no fortalecimento da comunidade negra americana, algo que não ocorreu no Brasil. Lá, a segregação racial era escancarada e oficial, com leis que determinavam o espaço de cada um. Por aqui, a segregação nunca foi oficial, o que facilitou a convivência diária. Por outro lado, produziu um racismo subjetivo e sofisticado, mais de natureza social do que propriamente racial. No Brasil, os negros são maioria das vítimas da violência e os que mais sofrem com a pobreza, com a baixa escolaridade e com o desemprego. A boa notícia é que a sociedade está condenando o preconceito e colocando-o em evidência como nunca o fez antes. Trata-se, sem dúvida de um grande avanço, que representa uma nova tomada de consciência social. O caminho, entretanto, ainda é longo.