Opinião
M�sculos e cora��o
RONALD MENDONÇA* Consagrado pelo voto popular, o musculoso canastrão Arnold Schwarzenegger despertou a ira de alguns ao ponto de se apelar para a improvável teoria ?sociopsicológica? de que a vitória do ? Predador? seria corolário da fase belicosa por que passa o povo americano, estimulado pelas insanas aventuras nas Arábias do presidente Bush. Besteiradas. Colega de profissão de Schwarzenegger, o ex-presidente Ronald Reagan, que nas telas encarnava personagens que sempre perdiam a mocinha para os protagonistas, nem assim deixou de ser ungido pelo eleitorado. Aliás, isso não é exclusividade ianque. A nossa história política recente comprova que o brasileiro ?cai de quatro? diante do charme de gente famosa. Nesse viés, em vez de Lula e Zé Dirceu, quem deveria estar mandando no País era o Antônio Fagundes ou o Paulo Zulu. E na pasta do Bem-Estar Social o ?moranguinho? Camila Pitanga, a primeira-enteada. Nada a estranhar porque o gosto pela ribalta apaixona atores e políticos. Por sinal, a irretocável foto de Heloísa Helena rasgando cópia de um documento na tribuna do Senado ficaria perfeita na ?calçada da fama? de Hollywood. Quem não lembra do barbudo Antonio Brito, porta-voz de Tancredo Neves, que com seu ar sinistro anunciava a lenta agonia do grande líder ? Pois é, lendo aqueles boletins macabros, Brito ganhou tanta simpatia popular que chegou a governar o Rio Grande do Sul. (Entre nós, a força da mídia provando que não é menor já elegeu até um prefeito da capital.) Nesse rolo compressor há figuras impagáveis. Imaginem o lixo que não seria a nossa Constituição Brasileira, a ?Constituição-Cidadã? do doutor Ulisses, se dela não participasse o seresteiro Aguinaldo Timóteo ?Alô-Mamãe?? Sem os apartes e considerandos do estridente menestrel estourando a boca do balão, certamente os brasileiros estariam definitivamente fritos. (Quem é que não sofre por alguém ?/Quem é que não chora uma lágrima sentida ?..., talvez resumam tudo). No entanto, o bom senso recomenda não esquecer de que não fazer parte do círculo dos ?políticos profissionais?, não compor esse estereótipo, por si só, não é selo de qualidade. Assim como aqueles que têm bíceps e peitoral de um Arnold Schwarzenegger não passam, necessariamente, atestado de incompetência. O fato é que ? como diz o José Elias ? com o ano eleitoral se aproximando, ?o bloco está quase na rua? e o que vem pintando de gente da mídia e de fora dela dispondo o nome para se candidatar a isso ou aquilo não está no gibi. Nessa áspera messe de catar os frutos mais vistosos, recolho-me ao desespero de Chapeuzinho Vermelho encarando o Lobo Mau e repetindo para si mesma: ?Calma, Chapeuzinho, quem vê músculos não vê coração?. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL