Opinião
Casa de Salomão
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A Universidade de Oxford tem entre as suas tradições ser um dos principais centros da revolução científica, movimento ocorrido na Europa do século XVII e um dos marcos do início da Era Moderna. Ela criou substanciais incentivos aos estudos da natureza, providos por Descartes, Copérnico e Bacon, marcando a história do conhecimento por ter criado a “Casa de Salomão”, onde reunia uma equipe de 33 pensadores, divididos entre “mercadores da luz” (que viajavam para trazer conhecimento), observadores, experimentadores, compiladores, intérpretes, e seus auxiliares.
Bacon deu um dos principais passos para que o conhecimento avançasse e se alastrasse - até então, todas as reuniões dos cientistas e filósofos realizavam-se em latim, o que restringia a disseminação do conhecimento. Bacon as fez realizar em inglês, o que logo se espalhou pelo continente europeu, propiciando acesso maior ao conhecimento pelo uso das línguas pátrias. Abriram-se as portas aos jornais e revistas da época, proporcionando a criação de uma coisa chamada “opinião pública”, que ainda hoje é fundamental nas democracias. Oxford chega ao Brasil para compartilhar uma pesquisa de vacina para o Covid19. Oxford tem desempenhado um papel importante: as suas projeções iniciais de possíveis contaminações e óbitos causados pela pandemia se aproximam da situação brasileira - epicentro mundial atual - quando o número de contaminados e de óbitos apresentam-se aterradoramente em elevação e chegamos a ter mais contaminados e óbitos (um a cada minuto) do que a soma de todos os demais países do continente latino-americano. Um monumental desafio se apresenta para os brasileiros: a soma das crises na saúde, na economia e na politica, que não sinalizam com uma condução oficial convergente. Disraeli afirmava: “Termos conhecimento de sermos ignorantes é um grande passo para o conhecimento”. O que se vê no Ministério da Saúde desde que Mandetta e Teich foram afastados é a proposição de medidas que são absolutamente desalinhadas com a autoridades sanitárias mundiais, como o uso indiscriminado da cloroquina. Chega Oxford, mas não chega a Casa de Salomão de Bacon do século XVII. Caso ela ressuscitasse de mais de 400 anos atrás, teria gigantesca dificuldade para compreender porque não existe nem nunca existiu o foco de priorizar o enfrentamento adequado da pandemia como a maior meta nacional; ficaria abismada com animus faciendi do Presidente da República, de repetidamente estimular e comparecer a aglomerações públicas antidemocráticas, sem máscara e em contatos próximos com os manifestantes, menosprezando as recomendações básicas das autoridades sanitárias mundiais. Edmund Burke afirmava: “O exemplo é a escola da humanidade. Em nenhum outro ela aprenderá mais”. Como implementar o distanciamento social com esse mau exemplo apresentado pelo Presidente da República? A resiliência da pandemia e as suas consequências nefastas para a economia, exigem uma convergência das autoridades com foco para o problema mais crucial: a perda crescente de vidas humanas. A flexibilização do distanciamento social ainda em fase de crescimento da pandemia vai na contramão das premissas científicas. A reativação da economia não virá por decreto, mas das expectativas de investidores e consumidores aguçadas ou não por fatores como risco, insegurança e previsibilidade. Falta-nos liderança no Planalto.