Opinião
Decadência da nossa cultura
.
No momento atual, uma realidade preocupante é a presença entre nós do Coronavírus, comprovadamente identificado como o mais recente flagelo da humanidade, às portas dos aglomerados urbanos, numa cadeia letal de transmissão. Sabemos apenas que, o referido vírus surgiu à nossa vista numa geometria fria de fato clínico, combinada com flashes de horror tão brilhantes e perturbadores que nos obrigam a recusar como se estivéssemos vendo um sol alienígena descolorido.
É o homem de conhecimentos científicos para coibir os acontecimentos, como o principal personagem dessa situação sobre a perigosidade de organismos microscópicos, ameaçando e ceifando a humanidade, corroendo seu próprio âmago. Quantos do nosso convívio já se foram! As consequências registradas pelo Covid-19 são assustadoras, dentre elas os danos pessoais irreversíveis, avizinhando-se, além, um grande colapso na economia, na política, no comportamento humano e na cultura como um todo. Na perspectiva dos recursos apontados para controlar a saga da pandemia, determinou-se o isolamento social, através do qual as famílias passariam a conviver em suas casas. Uma providência comprovada como único meio, por excelência, de se evitar o contato transmissor. Contudo, no nosso entender, trata-se de uma alternativa considerada como um “Mal Necessário”, tornando-nos prisioneiros de nós mesmos, além da agravante da ocorrência de alguns casos de violência doméstica através do consumo de bebidas alcoólicas, do uso de drogas, numa degeneração familiar inaceitável, gerando traumas psicológicos, lesões físicas e a exposição do sofrimento de crianças, mulheres e idosos. As crianças “escondidas” em seu isolamento, muitas das vezes são as maiores vítimas das turbulências familiares no caminho de inevitáveis catástrofes domésticas. A criança maltratada sente o desmoronamento de suas fantasias em torno dos seus ídolos – mamãe e papai. Em algumas famílias as esposas são chantageadas pelos maridos, cedendo às suas pressões, dominadas pelo medo, humilhadas pelas grosserias e violências num ambiente de isolamento. Não é sem razão que as separações de casais aumentaram assustadoramente durante a pandemia. E o idoso confinado? Será que lhe são assegurados a liberdade, o respeito e a dignidade com a inviolabilidade da sua integridade física, psíquica e moral? Em muitas famílias o idoso é sinônimo de desvalor, de incômodo, deixando-o humilhado e triste, num beco sem saída. Daí a razão pela qual o isolamento social é por nós considerado um “Mal Necessário”, pois se de um lado evita a possibilidade de contato e consequente transmissão do vírus, por outro lado, para algumas famílias, é motivo de preocupação. Contudo, num esforço pela preservação da saúde pública foi admitido um recurso intermediado por meios polêmicos. Chega-se à conclusão de que o nosso país mudou, como todo o mundo, em consequência do Covid-19, alterando o curso da nossa história, dos nossos hábitos, de nossa educação, cerceando nossos gestos carinhosos, os quais tanto nos reconfortam. Não há despedidas, não há ritual quando se trata de um velório, onde a travessia é exacerbadamente dolorosa, um marco que jamais se apagará de nossa consciência! A vida de agora em diante será definitivamente online, embora seja prematuro para se contabilizar o impacto do vírus, não descartando a possibilidade de grandes mudanças estruturais na formação de uma onda com potencial de mudar uma cultura de poder forte e dominante, sempre disposta a confrontar a ciência, a razão e a política de convergência. Não haverá amanhã sem hoje, nem depois sem agora. O que se constata é a decadência da nossa cultura como consequência da passagem, entre nós, do Covid-19.