Opinião
Depress�o
MILTON HÊNIO * Ultimamente tenho ficado surpreso com algumas crianças que chegam ao meu consultório, entre 10 e 13 anos, com um quadro de depressão. Era muito raro esse diagnóstico até uns quatro anos atrás. E o que faz uma criança ficar assim? É que o mundo mudou e a criança também sofre os reflexos dessa mudança. Problemas emocionais ligados aos desajustes familiares, ao estresse do pai desempregado ou conflitos no colégio, são as causas mais diretamente ligadas ao surgimento dessa doença. Calcula-se que, atualmente, 2% a 3 % das crianças brasileiras sofrem desse mal. Na maioria dos casos, a doença não é detectada de início porque os pais acham que a criança está tendo esse comportamento estranho em conseqüência da idade. Ela chora fácil, fica irritada, tem insônia, recusa-se de freqüentar as festas da família, apresenta uma grande queda no rendimento escolar e por aí vai. A depressão é uma doença e exige um acompanhamento médico, além da compreensão, da paciência e do amor dos pais na recuperação do pequeno paciente, o que acontecerá, com certeza. O mecanismo da depressão na criança é o mesmo do adulto: o cérebro está em crise. A comunicação entre os neurônios (calcula-se que temos 100 bilhões em nosso cérebro), é feita com a ajuda de substâncias químicas chamadas neurotransmissores, como a serotonina, que é responsável pela nossa alegria, a dopamina e a noradrenalina, que regulam o estado de humor e a motivação de viver da gente. Cada célula nervosa envia através de uma verdadeira rede, gotículas dessa substância para a célula seguinte e assim sucessivamente. O que não é absorvido pela célula da frente retorna para a que enviou por último. Na depressão esse mecanismo é quebrado, ficando, assim, comprometido esse esquema perfeito do organismo, surgindo os sintomas de tristeza, cansaço, dificuldade de concentração, insônia etc. Os remédios antidepressivos vão atuar no sentido de manter estável o volume desses neurotransmissores no cérebro, impedindo o seu retorno. É bom frisar que esses sintomas apresentados pela criança ou pelo adulto depressivo, independentemente das causas desencadeantes, sempre têm um componente genético como fator predisponente. As mães costumam me perguntar qual a diferença entre depressão e tristeza. E eu respondo dizendo que a tristeza é um sentimento que faz parte da vida de todos nós, assim como a alegria e o medo. É motivada por aspectos externos, como a perda de um parente, um prejuízo, um namoro interrompido, uma reprovação no vestibular. Enquanto a tristeza não impede do indivíduo manter a sua vida normal, na depressão isso não acontece, porque a sensação que a pessoa tem é que o mundo caiu sobre sua cabeça. O fato é que, independentemente de um quadro depressivo agudo, ninguém passa pela vida sem se sentir algumas vezes deprimido. Quando as pessoas têm pequenas crises de depressão, os jovens batizam de ?fossa? esse quadro, o que se caracteriza pela perda da vontade, do interesse, um certo desgosto de si próprio. É comum a gente ouvir de alguém frases como: ?Levantei-me hoje com o pé esquerdo?. Na verdade, isso é conseqüência de maus pensamentos acumulados na mente do indivíduo. A nossa vida tende a dar certo. Nós é que atrapalhamos. No fundo, no fundo, todos nós almejamos a felicidade. Em todas as raças, em qualquer lugar do mundo, a felicidade é ansiosamente esperada. Lembre-se, caro leitor, que as reações negativas, principalmente aquelas que acontecem diariamente, mesmo de pequeno porte, vão minando seu organismo, proporcionando um bom terreno para o surgimento da depressão ou doenças outras. Procure viver, se possível, com coragem, enfrentando os obstáculos com alegria e fé em Deus. E tenha a certeza que no meio de tanta luta, de tanta confusão, o sol brilhará em sua vida nos dias que virão. (*) É MÉDICO E-MAIL: [email protected]