Opinião
Cota cidadania
A exemplo de outras universidades públicas brasileiras, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), estabeleceu que a partir do próximo vestibular, 20% do número de vagas de todos os cursos da instituição serão destinados a negros originários de escolas públicas. Para a Secretaria Estadual das Minorias, a medida tenta minorar uma distorção gritante: 47% da população brasileira é negra, mas apenas 3,9% tem nível superior. Mesmo assim, a secretaria reconhece que, do ponto de vista de inclusão social, a medida vai beneficiar (segundo suas estimativas) num período de 50 anos, apenas 500 estudantes, o que é muito pouco e mostra o alcance limitado do sistema de cotas. Em alguns estados, principalmente no Rio de Janeiro, ocorreram problemas, pois lá, como aqui, o candidato é quem se auto-identifica, o que ensejou fraudes. É prudente que se tomem medidas coercitivas para que uma decisão que visa propiciar uma alternativa para grande parcela da população que, de outro modo, teria dificuldades de chegar à universidade, não tenha seus objetivos distorcidos. Mas a grande discussão é se a importação de um modelo americano de inclusão se aplica à realidade brasileira. As extremadas tensões entre a população negra e a branca nos Estados Unidos não possuem similar no Brasil, até porque a evolução social pós-escravatura foi bem distinta para negros americanos e para negros brasileiros. Por outro lado, o processo de destruição do ensino público observado nas últimas décadas impediu que o acesso à universidade, antes mais democrático, se tornasse um caminho ainda mais excludente. Devolver a qualidade ao ensino público é um processo mais lento, porém, mais seguro e justo. Pois, junto com ele, serão devolvidas as esperanças perdidas de milhares de estudantes alagoanos (pobres de todas as cores) da rede pública de ensino que sonham um sonho previamente perdido: entrar na universidade. Mas, como não criar mecanismos paliativos para se amenizar tão clamorosas injustiças? É um alento para boa parte dos excluídos (no caso negros), o que nas condições atuais não é pouco. Vale a pena tentar.