Opinião
Escola Folclórica de Viçosa
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Há muito que os avelhantados engenhos de bangüês da bucólica Viçosa guardam consigo parte da história deste povo, cujas lembranças ainda avivadas na memória de remanescentes personagens que testemunharam a aparição de lídimas manifestações populares em suas profusas matizes ousam perdurar. Tais manifestações egressas do entrelaçamento étnico de nativos caambembes, colonizadores lusitanos e africanos escravizados, foram transcritas em desbotadas páginas de efêmeros jornais e epístolas, quais registros inapagáveis para as posteriores gerações. Os sons descompassados dos versos, cantados por afamados poetas à sombra arrefecedora dos alpendres da Casa-Grande da Mata Verde, quando de renhidas disputas entre vates locais, sob o patrocínio do Dr. Olegário Brandão Vilela (1886-1945) [precursor], tornavam àquela comuna ribeirinha num autêntico paiol do folclore alagoano.
Os espelhos e multicoloridos fitilhos, que ornamentam o frontispício de avantajados chapéus de velhos mestres, dão um brilho indescritível à apresentação do Guerreiro, sob os passos cadenciados de seus figurantes (rei, rainha, contra -mestre, lira, palhaço, índio Peri, dentre outros), acrescidos ainda às harmoniosas melodias que embalam as jornadas natalinas do Pastoril, numa ofuscante aquarela dualista entre o azul e encarnado, sempre contraposto pela mediação da Diana, que não possui cordão. Toda essa amálgama de folguedos e danças populares teve lugar no imaginário intelectual de antropólogo e médico de escol Dr. Théo Brandão – máxime da inteligência caeté, que fez de suas pesquisas um lídimo sacerdócio. Durante décadas as tradições afro-ameríndias permeavam sobremaneira o vitae habitum [estilo de vida] de paupérrimos lavradores de terra, que quase sempre desprovidos de conhecimento acadêmico e acesso a medicina convencional, buscavam nas ervas e raízes bem como nas práticas misteriosas do curandeirismo, o lenitivo para as agruras a que estavam adstritos, cujos costumes adensaram os escritos de Dr. José Pimentel Amorim, culminando na publicação de sua invulgar obra: “Medicina Popular em Alagoas”. Os cânticos dolentes de afamados vaqueiros nordestinos, sob o sol inclemente de uma terra ressequida, ecoavam por entre os arbustos da caatinga em forma de aboios e toadas, quais cancioneiros sobre o lombo de seus ginetes e muares, se tornando doravante fontes inesgotáveis de pesquisas do escritor José Aloísio Brandão Vilela, que ainda percorreu a largos passos os sinuosos caminhos até albergar as fidedignas origens do Coco de Roda em solo alagoano. Somando-se a todo esse acervo miscigenado do folclore regional, que emoldura numa pintura naturalista diferentes expressões de linguagens, saberes e costumes, nascidos no imaginário popular, despontam os estudos elaborados com escorreita dissertação, peculiar à intelectualidade do romancista Dr. José Maria de Melo, cuja pena fulgurante foi capaz de imortalizar as crenças e superstições que hodiernamente povoam os pensamentos surreais da gente simples, legando a Princesa das Matas [Viçosa] o auspicioso e não menos festejado título de escola folclórica de Alagoas.