Opinião
Bom dia, senhora!
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Parecia estar jogando palavras ao vento. Ela seguia calada, ignorando o meu cumprimento.
Aquilo me incomodava terrivelmente. Estava sendo gentil, cortês e, no entanto, o que recebia em troca era o silêncio. Vários dias se passaram e a mesma cena se repetia até que, um belo dia resolvi segui-la. Esperei-a na calçada, não na janela como sempre fazia. Ao passar, dirigi-lhe o mesmo cumprimento e, mais uma vez, parecia estar falando só. Com o olhar fixo, ela seguia sempre olhando em frente, nunca para os lados. Deixei-a passar e logo em seguida saí, seguindo seus passos, em busca de uma explicação para tanta indiferença. Andamos por algum tempo até chegarmos ao parque. Ela parou em frente a um canteiro de margaridas e, por alguns minutos, permaneceu com o olhar fixo nas flores. Pensei: Quem tem sensibilidade para admirar flores, não pode ignorar um cumprimento respeitoso. Logo em seguida, a caminhada recomeçou, ela na frente e eu atrás até chegarmos a uma área de convivência onde várias pessoas conversavam, lanchavam, liam livros ou namoravam, enquanto as crianças brincavam correndo na grama por entre as frondosas árvores que proporcionavam uma sombra bastante agradável e aconchegante ao ambiente. Apenas um banco estava desocupado, os demais estavam sendo usados. Ela parou, virou de frente para mim, que estava atrás dela e, pela primeira vez me olhou com um olhar de interrogação, sobrancelhas franzidas, expressão de surpresa. Confesso que não senti indiferença naquele olhar. Curiosidade talvez seja a forma mais correta de descrevê-lo. Como nada falou, calado também fiquei. Ela sentou e com a mão, fez um gesto, batendo no banco, como se me convidasse a sentar com ela. Interessado em prolongar aquele encontro e ter respostas para os meus questionamentos, prontamente aceitei o suposto convite e sentei ao seu lado. Ela esboçou um leve sorriso, mas ficou apenas nisso. Abriu a bolsa, retirou um livro, cruzou as pernas, procurando uma posição mais confortável, relaxante e começou a ler. Não sabia o que fazer, se tentava puxar uma conversa, se permanecia calado para não a incomodar ou se levantava e voltava para casa sem as respostas que esperava obter. Olhei para ela, tentando decifrar o que lia com tanto interesse. Ela, talvez percebendo a minha intenção, levantou a cabeça fechou o livro e pude ver claramente o assunto que tanto a atraía. A partir desse dia e dessa descoberta, quando a avistava, no início da rua, saía da janela e a esperava na porta, com uma margarida na mão para lhe oferecer. Seguíamos para o mesmo parque e juntos passamos a ler o seu livro preferido: LIBRAS, A LINGUAGEM DOS SINAIS.