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Opinião

Maquiavel e o Brasil

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EDUARDO BOMFIM * Há sinais de revolvimento no contexto da realidade brasileira. Eles não indicam um só caminho, são contraditórios, complexos mesmo. Há uma firmeza mais evidente na definição do esboço de um projeto nacional de desenvolvimento e de inclusão social. É verdade, trata-se de um processo tateante, buscando escapar de armadilhas de um contexto financeiro internacional com alto grau de área minada. Não existe possibilidade de ignorá-lo e muito menos de se ficar à mercê destas condicionantes globais. O fundamental será encontrar a trajetória para superar estes obstáculos. Em todos os cantos do País aumenta consideravelmente o interesse pelos mais diversos temas que antes eram restritos a um número reduzido de especialistas. A pergunta que pode ser feita é por que a curiosidade em saber, dominar, mesmo como leigo, questões que fogem ao cotidiano do cidadão comum, minimamente informado? A resposta mais plausível advém do fato de que as pessoas começam a perceber que o Estado Nacional foi praticamente desmontado, pelo menos em várias partes vitais a sua eficiência. Também constatam que sem este Estado, países nas condições do nosso, não poderão alcançar estágios superiores de crescimento e justiça social. Assim tem sido o itinerário do Brasil através de épocas distintas e modelos diferenciados. Quando ele não age como forte indutor de políticas públicas estratégicas, o País fica à deriva, vítima de orientações antinacionais e antipopulares, refém das diversas orientações do liberalismo econômico que variam de nome, forma e conteúdo de acordo com as distintas circunstâncias históricas. As forças de esquerda, nacionalistas, progressistas, ficaram alijadas do centro do poder decisório nacional desde 1964, à exceção de rasgos democráticos, como os momentos do governo Sarney, onde se legalizaram os partidos banidos da vida política, dentre eles o PCdoB, e foi convocada a Assembléia Nacional Constituinte. Os prejuízos que atingiram toda uma geração foram incalculáveis. O distanciamento da vida pública, parlamentar, executiva, científica. A censura férrea, a proibição da transmissão em larga escala do pensamento mais avançado da humanidade, o desconhecimento concreto da realidade do próprio País através do contato desabrido com a vida legal, ou mesmo a intimidade com os mestres dos mais variados ângulos da nossa conformação nacional, acarretaram prejuízos incalculáveis. Eis um dos mais dramáticos legados deixados pelo arbítrio. Os mais diversos segmentos progressistas têm sede aguda de agarrar-se ao tempo e saltá-lo como em uma corrida de obstáculos, com o objetivo de resgatar, superar o tempo usurpado, roubado pelos ditadores e seus sequazes. Alguns, eternos camaleões, mudando de cor ao sabor do processo histórico. No entanto, o caminho ou a luta impõe que devemos ir recolhendo a aprendizagem e estudando, assim como se assobia e chupa cana ao mesmo tempo. Combatendo a catástrofe social herdada, desbravando as trilhas inegociáveis da soberania, rumo às transformações sociais que fizeram dos nossos sonhos mais nobres a causa das nossas vidas. Forjando uma cultura reflexiva e transformadora em nós e libertando o turbilhão da sabedoria popular, construída na dor, na fome e na esperança, e paciência que faz exemplar os céticos, os cínicos. Sem esta identidade construída a ferro e fogo, suor e sangue, as vanguardas estarão ilhadas. Nestes tempos árduos, de choques, contradições no seio do próprio governo, creio que a nossa tarefa deve mover-se também pelos ensinamentos do Maquiavel apaixonadamente republicano, quando diz que mais que formular (e devemos formular sim) um novo conceito de verdade, ele nos ensina a deixar de lado formas políticas imaginárias. Quer dizer, encontrar soluções concretas para os desafios reais. Os estadistas do marxismo compreenderam muito bem esta equação. (*) É ADVOGADO

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