Opinião
Impacto profundo
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Estudos acadêmicos concluíram que áreas litorâneas brasileiras se caracterizaram por níveis elevados de degradação ambiental, alguns acumulados por transformações socioeconômicas seculares. É o caso de Cubatão, cidade situada no litoral de São Paulo, que até ficou conhecida internacionalmente como o “Vale da Morte”, pelos idos de 1970, tamanho o estrago em seus ecossistemas e os males causados à população.
No caso do Sul de Maceió e sua restinga, a intervenção ocorreu há quase meio século, com a imposição da planta industrial da Salgema Indústrias Químicas S/A. O gesto foi suficiente para interferir na vocação natural da região, que indicava o caminho do desenvolvimento escudado na sustentabilidade. Dez anos após a entrada em operação da Salgema, com diversos acidentes e polêmicas discussões públicas, a exemplo da pretensa duplicação da planta industrial e instalação de um terminal de granéis químicos, um gesto governamental ecoou como desagravo ao Sul de Maceió. Fernando Collor, na condição de governador de Alagoas, decretou o tombamento do pontal da Barra. Se à época de instalação da planta da Salgema, as autoridades tivessem tido a mesma decisão de tombar o Pontal da Barra, não optando pela simples lógica do lucro do capital, o destino socioeconômico daquela região teria certamente seguido outro rumo. Também seria bem possível não estarmos hoje testemunhando um profundo impacto na vida de parcela substancial dos habitantes de Maceió. Além do Pinheiro, Bom Parto, Mutange e Bebedouro, cujos moradores veem suas raízes e sonhos afundando nas cavernas da mineração, acrescente-se à conta o prejuízo histórico causado ao Trapiche e Pontal da Barra. Estamos falando de mais de setenta mil residentes nesses bairros, conforme recente projeção do IBGE. E o impacto na economia? Apenas os bairros ameaçados pelas rachaduras da extração de Sal-gema somam 4,5 mil CNPJs ativos, representando mais de trinta mil empregos e um faturamento bruto anual na casa de 1,3 bilhão. Só o Pinheiro detém 2,7 mil CNPJs ativos, de acordo com dados do Fecomércio e da Junta Comercial. O sistema de transporte coletivo, que já vem em crise, também foi impactado. O VLT, por exemplo, comprometeu o transporte diário de 12 mil usuários, já que o trecho a partir de Bebedouro foi interditado. O quadro é grave e não admite omissão das autoridades, a partir do governo federal, que, pela Petrobras, detém o controle da metade da Braskem. Em tempo de debate sobre o futuro de Maceió. A hora é mais que propícia para avançar e fazer um acerto de contas com o passado, de modo a resgatar a dívida contraída com milhares de maceioenses, que precisam recompor suas vidas e restabelecer a autoestima.