Opinião
A herança mais bonita
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Desde que o homem passou a dominar o fogo, há mais de 500 mil anos, a relação com a comida mudou. Evoluímos, a tecnologia avançou, o que se mantém é que tudo gira ao redor do prato, do pão ao vinho, seja uma mesa cristã ou um banquete ateu. Envolve prazer, memória. As panelas cheirosas que a avó trazia do fogão à lenha, o alumínio fumegante retirado do micro-ondas pelo primeiro namorado, as xícaras delicadas para o café da tarde na casa da madrinha, a fumaça que preenchia a casa acompanhada de uma melodia nativista a cada churrasco dominical.
As lembranças percorrem rios de fome. Sulcos que vão sendo preenchidos pela vida, sabores variados nas culturas. Doces que homenageiam crianças em festas de Cosme e Damião no Nordeste brasileiro ou no Halloween, este recentemente incorporado ao calendário nacional, ou preparados como despedida aos mortos, parte das ofrendas, assim como se escreve, no México. No isolamento social, percebe-se o avolumado interesse pelo feitio de pratos mais elaborados, corrida aos sites e belas fotos que, compartilhadas em redes sociais, ganham projeção. São fontes de diálogo, elogios e um bem comum, já que há um tanto de gente que as prepara para doação ou como alternativa de renda. Há meses distante de meu filho, criamos o costume de nos ligarmos no final da tarde para falarmos sobre o dia. Temos cuia e bombilha idênticas, adquiridas em uma viagem a Montevidéu. O mate é nossa comunhão. Surpresa fico ao saber que ele já se debruçou no preparo de carne de panela, bolos, empanadas e não só deixou de lado o temor do uso da panela de pressão como ensinou o pai a fazer feijão em telechamada. Orgulhosa, contei o feito a uma amiga de relação longeva: “também pudera, ele cresceu te vendo cozinhar”. E me dei conta que quase todos os pratos que o filho prepara não fogem daqueles de sua infância. E não fogem muito da minha própria infância. Apuramos as técnicas, contamos com melhores eletrodomésticos e utensílios, mas a essência é a mesma. A importância de se resgatar o fogão, as conversas à mesa, a possibilidade de trazer as crianças para uma bancada enfarinhada, a certeza de que os pequenos poderão saborear cada garfada porque participaram da elaboração. Valorize cada momento. Enquanto durar o distanciamento, a comida é o abraço que não podemos dar.