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Rep�blica dos bandidos

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RONALD MENDONÇA * Mais uma vez a sociedade brasileira foi sacudida por um duplo e bárbaro assassinato de adolescentes - ainda uma vez em São Paulo - cujo pecado foi o de acampar num sítio abandonado. Os crimes tiveram a participação de um menor de 16 anos que tudo confessou, sem a menor cerimônia. Calcula-se que esse rapaz deverá ficar preso na Febem até os 21 anos e depois bye, bye. Enquanto juristas beccarianos já se movimentam para reduzir a pena (que nem existe), ?assegurando sua aplicabilidade?, os direitos humanos envidam esforços para que o ?garotinho malcriado? tenha seus direitos assegurados ?na forma da lei?. E a esculhambação seguirá o seu rumo. Nessas circunstâncias, visto sempre a camisa dos pais das vítimas e não poderia ser diferente. Há exatos quatro anos o mundo desabou sobre nós, quando nossos dois filhos mais velhos (28 e 22 anos) foram assassinados por um animal com cara de gente, que prestava serviços em nossa casa. Embora saiba que não resolve nada, faço questão de conservar na minha cabeça, com a maior nitidez possível, cada detalhe do acontecimento. Assim, várias vezes por dia, mesmo acompanhado, ?saio do ar? e fico imaginando os momentos de desespero vividos pelos meus meninos, sobretudo da minha Lavínea. Minha filha ficou mais tempo acuada e presenciou o irmão ser baleado, mesmo caído de bruços e sem condições, portanto, de oferecer qualquer resistência. Depois, foi a sua vez de ser imolada de forma fria e igualmente covarde. Pediu para não ser morta. Como Roninho, foi atingida enquanto estava de costas. Se em alguma coisa os quatro anos me ajudaram, foi a pensar com mais lucidez. No entanto, nunca consegui entender o que levou (a não ser o lucro fácil) uma professora com nível superior, comerciante, fazendeira, dona de casa, mãe de família, a ?guardar? dólares roubados e não se tocar de que tinha o dever moral de comunicar às supostas vítimas. A alardeada tese da ?ingenuidade?, da ?boa intenção?, é completamente descabida quando se sabe que a intrujona reteve o dinheiro roubado enquanto pôde, só o devolvendo depois que o bandido a apontou como receptora. Pessoalmente, acredito até que essa mulher jamais pensou que estava lidando com um assassino. Mas, com certeza, era clara a participação num roubo! Outra questão ? são tantas ! ? que ainda hoje me espanta é a inexplicável omissão da dupla polícia/Ministério Público, quando se tratou de investigar a loja de armas que clandestinamente forneceu o arsenal que matou os meus filhos. O tumular silêncio do valoroso MP continua a soar ofensivo à comunidade. Finalmente, apesar de ser muito pouco, presto a minha solidariedade aos meus colegas de infortúnio, pais e parentes de vítimas, que estão sendo obrigados a conviver com a arrogância dos assassinos dos filhos, posto que as pernas inchadas da Justiça não têm pique para chegar junto. Et vive la République ! (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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