Opinião
A extinção dos porquês
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Uma das coisas que mais tive dificuldade em meu tempo de colégio foi o aprendizado dos porquês e não estou falando somente de sintaxe, me refiro ao por que das coisas das origens e funções, muito se aprende no colégio, mas pouco se diz sobre os porquês, Na minha época era raro um professor dizer o porquê de tal conceito ensinado, o uso destes em nossas vidas, quando isso acontecia com exemplos práticos esse professor era visto como o diferente o descolado. Entendo que o uso dos Porquês faz nascer o entendimento sobre a realidade abre portas para o conhecimento, alimenta o nosso senso crítico. Eu não sei vocês, mas hoje o que percebo é que os porquês estão em extinção, estes estão sendo substituídos por simulacros conceituais, retalhos de opiniões costuradas, como minha vó dizia: ‘‘historias sem pé nem cabeça’’ e já que estamos falando de porquês essa expressão vem do Latim: ‘‘nec caput nec pedes’’ algo que não faz sentido.
Nos dias de hoje muita coisa não faz sentido e ninguém pergunta o porquê, isso é muito paradoxal, estamos vivendo na era da informação, das redes sociais, da vida virtual, onde conexões são feitas a qualquer hora e momento, onde barreiras geográficas e temporais não significam nada, (meu eu da época do colégio nunca iria imaginar que iria conversar e ver uma pessoa ao vivo na China por um aplicativo de celular e depois falar com outra no Cazaquistão tudo isso um pouco antes de ir dormir) deveríamos nos aproximar de entendimento sobre a realidade cada vez maior ao invés disso nos afastarmos dela ao ponto de desacreditar provas cientificas analisadas e experimentadas a exaustão, o uso da virtualidade deveria ser uma ferramenta para melhorarmos o real e não desacredita-lo, deveríamos ter percebido que como bem analisa Borges em sua fabula o mapa não deve substituir a paisagem real o simulacro não deveria substituir a realidade e sim tentar melhora-la. Os simulacros sempre existiram e sempre irão existir o ser humano sempre ira criar algo para fugir da realidade, mas fugir da realidade por um tempo não significa não querer voltar mais para ela, vivemos como conto do encontro da verdade com a mentira é mais fácil encarar uma mentira vestida de verdade do que a verdade nua e crua, dai a eficiência das Fake News. Não buscar o porquê das coisas é se abrir para a dominação de qualquer mentira. No Brasil estamos vivendo uma das piores crises mundiais nesse sentido, há muito o simulacro fez sua casa no país em que o entretenimento é levado a sério, vivemos as consequências dos efeitos do simulacro na realidade a todo o momento me pergunto o porquê de diversos acontecimentos. Gostaria muito de entender o porquê de estarmos vivendo em um país com 211 milhões de habitantes e que (acredito eu) em sua grande parte não se perguntam o porquê de estarem presenciando 101.000 casos de mortes por conta de um vírus que assola o mundo todo. De não se perguntarem do porque a violência contra a mulher aumentou 35% no ano em que estamos vivendo com relação aos anos anteriores, gostaria de entender o porque que um dos países mais miscigenados do mundo ainda tem casos graves de racismo, os problemas são tantos que não cabem aqui mas o que realmente eu gostaria de entender é o porquê de tanta gente apoiar um servidor publico (que deveria priorizar o povo) que está sentado na cadeira do executivo afirmar que o poder destruidor do vírus é superdimensionado pela mídia, que nas palavras dele é só uma “gripezinha”, que “Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia.” Como entender pessoas que aceitam que o mesmo servidor publico quando perguntado sobre o aumento das mortes responder: “E daí?”, “Cobre do seu governador” ou “não precisa entrar em pânico”. Enfim, não me descrevo como uma pessoa otimista. Acredito que sou realista e, por isto, algumas vezes me permito ser otimista, fugir um pouco da realidade de maneira sadia me esconde da insônia. Acredito muito na humanidade, não gostaria de presenciar a extinção dos porquês, dos sentidos, sem eles não haverá esperança para a sociedade iremos deixar apodrecer a realidade enaltecendo o mapa, iremos nos perder nos labirintos da mentira, da opressão, da exclusão, do egoísmo, iremos esquecer que nossa maior dádiva é a compaixão o amor ao próximo, portanto eu vós peço não permitam que os porquês entrem em extinção.