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Opinião

A epidemia populista

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Em 1796, Edward Janner (1749-1823), um médico rural inglês, encontrou uma maneira de prevenir a letal varíola injetando intencionalmente varíola bovina, uma doença semelhante, porém muito mais moderada, em um garoto. A varíola bovina era uma doença de vacas por vezes contraída por ordenhadoras, e observou-se que essas meninas pareciam protegidas contra a varíola mais perigosa. Janner chamou esse novo procedimento de vacinação (derivado do latim vacca), e foram iniciados em vários países programas de vacinação que ajudaram a eliminar muitas doenças graves. Pasteur, iluminado por Janner, obteve vacinas para o Antraz, para a mortífera raiva, conscientizou o mundo sobre a poder da ciência médica e cunhou o humanístico axioma: “A ciência não tem fronteiras, ela pertence à humanidade”.

O mundo contemporâneo subjugado pela pandemia de Covid-19 deparou-se com o anúncio de uma vacina russa pronta para ser administrada. Uma vacina eficaz e segura será o maior passo para o retorno gradual à normalidade e à luta pela recuperação econômica. Todavia, as autoridades científicas mundiais mostraram ceticismo com o uso dessa vacina que desafia os cânones científicos. Paralelamente, no Brasil, onde o estrago causado pela pandemia causa inevitável debacle na economia, Guedes, o ministro da Fazenda, liberal da Escola de Chicago, lamentava uma debandada de sua equipe (previamente desfalcada de Mansueto de Almeida ) e alertava o presidente que a gastança e o desrespeito ao Teto dos Gastos poderiam deteriorar ainda mais a economia e levá-lo ao impeachment. Uma suspeitíssima Guerra de Vacinas parece deflagrada: na Rússia, Putin, líder populista, pula etapas e oferece ao mercado um produto que troca a segurança pelo seu marketing pessoal. A OMS imediatamente recomendou prudência absoluta com esse produto. Nos EUA, Trump, outro líder populista, grita que terá uma vacina pronta para o dia das eleições em novembro. A comunidade científica norte-americana não respalda essa promessa eleitoreira. Nos dois casos, é grande a possibilidade de a ciência estar sendo utilizada de maneira inescrupulosa com fins exclusivos do jogo do poder. A esse método chama-se populismo. Rabelais (1490-1553) já alertava: “Ciência sem consciência é a ruína da alma”. O populismo nasceu na Argentina em 1945 como alternativa de pós-guerra ao socialismo e ao liberalismo, e como sobrevivência “democrática” ao fascismo. Era originalmente de direita com Peron, mas é usado pela esquerda, como com Hugo Chávez na Venezuela e com os Kirchner na Argentina. Seja de esquerda ou de direita, as bases de sua sustentação são iguais: o líder populista veste a fantasia da antipolítica, alardeia ser uma figura totalmente “fora do ninho” político (mesmo que tenha mais de 30 anos de vida política convivendo com seus vícios e na qual instalou a família e centenas de apaniguados), ataca as instituições democráticas e a imprensa livre, estimula a paranoia dos seus liderados com a criação de inimigos reais ou imaginários (todos que divergem são ‘inimigos do povo’ ou ‘comunistas’, que querem ‘derrubar o governo’, embora empresários e banqueiros também discordem vigorosamente). Enfim, o populismo tem entre suas facetas predatórias a sua vocação enganosa para apresentar soluções fáceis para problemas muito complexos. O populismo preocupa-se só com o dia de hoje e seus ganhos imediatos. Para ele o amanhã e as futuras gerações são insignificantes. Dessa forma, o populismo apresentou-se nessa pandemia, através da milagrosa cloroquina e de seu uso político, no negacionismo científico, no desrespeito ao distanciamento social, na malévola conflagração política com governadores e prefeitos, quando se precisava (e se precisa) era (e é) de união e soma de esforços, uma força humana capaz de mover montanhas e também destruí-las. O populismo persiste e ameaça a recuperação da economia. Guedes, enfraquecido, luta pelo ajuste fiscal, do Teto dos Gastos, também para manter e atrair os cobiçados investidores, mas outra ala forte do governo, que inclui o Centrão, militares desenvolvimentistas e familiares do presidente da República, pressiona pela gastança em obras e o que mais que lhes garanta votos para a reeleição em 2022. As reformas tributária e administrativa parecem relegadas. A reeleição foi um péssimo legado de FHC à Nação.

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