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Opinião

MODERADOS E DESREGRADOS

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Quando Oscar Wilde escreveu “A moderação é uma coisa fatal (...) Nada tem mais sucesso do que o excesso’’, até parece, mas ele não estava no Brasil atual. Agir com moderação em situações difíceis é uma dos nossas maiores dificuldades. Os radicalismos e polarizações acumulados e incentivados pelos extremos políticos que se digladiam no País nos últimos 18 anos inviabilizam quem tente adentrar a um debate com moderação, equilíbrio e imparcialidade. Imediatamente é apedrejado, tanto pela direita como pela esquerda. A inexistência de espaço para um debate moderado tem dificultado ainda mais a situação já complicadíssima pela pandemia de Covid19, afetando tremendamente o debate sobre questões essenciais, tais como se deve gastar melhor os recursos públicos no atendimento à população.

Exemplos se escancaram em todas as áreas, extrapolando a política e alcançando a Medicina, onde faltam (e sempre faltaram) recursos públicos para melhor atender à população mais vulnerável, enquanto que, paralelamente, centros de saúde e hospitais públicos e privados estão abarrotados de exames complementares realizados e abandonados pelos pacientes. Obviamente, não estamos mais nos tempos do médico canadense W. Oslen (1849-1919), que alardeava: “Um dedo na garganta e outro no reto fazem um bom diagnóstico’’. É inquestionável que grandes conquistas no exercício da Medicina se amparam principalmente nos avanços tecnológicos e no seu uso adequado pelos profissionais de saúde, mas se não tiver uma racionalidade, uma moderação na solicitação desses exames, os custos ficam impraticáveis tanto para o setor público como para os planos de saúde privados, que os repassam para os usuários.

Nas redes sociais desregradas (alimentam-se da falta de regras), a raiva e a intolerância avançam: é o exemplo da criança de 10 anos que deveria estar brincando com bonecas e aparece com uma gravidez decorrente de repetidas sessões de estupro perpetradas por um animal com formato humano. Um caso de bestialidade que chegou à mídia entre tantos semelhantes mas que, ao invés de despertar compaixão e piedade pela vítima, mobilizou extremistas políticos e fundamentalistas religiosos movidos por criminoso vazamento, quando odiosamente ameaçaram a integridade física da criança e o seu equilíbrio emocional já maltratadíssimos. Médicos do Espirito Santo negaram-lhe o atendimento, fazendo-se necessário transportá-la para hospital público distante 2 mil quilômetros de lá. Nesse mesmo clima de estreiteza moral e ética, cidadãos que são declaradamente contra a corrupção e intolerantes com desvios de dinheiro público, caso esses crimes sejam cometidos por políticos de seu agrado e de sua linha ideológica, tornam-se tolerantes com a corrupção. Logo, o crime depende de quem os comete: se for da “turma amiga”, faz de conta que não existe, pura e desregrada hipocrisia. Horácio (65- 8 a.C) alertou há 2 mil anos: “ Lembra-te de conservar a equanimidade nos momentos mais difíceis “.

A sociedade vai chafurdando nas suas mazelas, daí resultando imensos prejuízos para a economia, como ocorreria para os cofres públicos caso a Câmara não tivesse remendado o desregramento do Senado na manutenção do correto veto presidencial ao aumento de gastos públicos nesse momento crítico da pandemia; moderação, como Rodrigo Maia tem mostrado não é inação, imobilidade, é fazer a coisa certa, principalmente nos momentos críticos. Na Medicina, aqueles exames complementares que são pedidos desregradamente, sem previamente o paciente ser submetido a uma anamnese e a um exame físico criteriosos, encarecem enorme e desnecessariamente o seu custo e ameaçam restringi-la drasticamente para a população mais desfavorecida, o que é agravado com a formação deficiente de novos profissionais decorrentes da proliferação descontrolada de novas escolas médicas, resultando na chamada Medicina Defensiva, quando o médico solicita apressadamente um monte de exames, envolve uma série de especialistas, recusa pacientes mais graves, açodado também pelo temor de processos jurídicos. Os moderados precisam se manifestar, mesmo que sejam apedrejados pelos desregrados. É questão de sobrevivência da civilidade.

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