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Opinião

Trump e John Wayne

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Para sobreviver às torpezas das prévias norte-americanas, à pandemia usada inescrupulosamente na política, desencontros e desagregações econômicas, e desgraças afins e tentar limpar um pouco a alma para sobreviver à quarentena, é necessário lembrar de quando os republicanos e os democratas americanos se revezavam no governo dos Estados Unidos sem maiores hecatombes. Existia uma Guerra Fria e um regime comunista não somente nos delírios da extrema-direita populista, mas a desafiar e ameaçar o capitalismo ocidental. Em 1963, o premiê soviético Khrushchev, em viagem aos EUA, esteve em Hollywood, onde apertou a mão de John Wayne, então o caubói número 1 dos westerns. Na afável conversa, Khrushchev confidenciou a Wayne que quando Stalin era o manda-chuva absoluto da URSS o teria chamado para planejar um atentado para assassiná-lo, já que “seria o maior símbolo de poder americano”, delírio, que, segundo Krushchev, também teria passado pela cabeça do camarada Mao.

John Wayne era um republicano de raiz e sua vitoriosa trajetória cinematográfica foi marcada igualmente por bom comportamento fora das telas: dava-se bem com os latinos, ao menos isso; especialmente com as latinas. Casou-se com uma filha de cubanos, depois com uma mexicana e uma peruana. Era profissionalíssimo, generoso com os colegas de ofício, afetuoso com a arraia-miúda do estúdio (fundamental virtude humana) e descontraído o bastante para não só aceitar como receber pessoalmente, e bem humorado, o prêmio Brass Balls Award (c***ôes de metal), anualmente concedido pela revista Harvard Lampoon, editada pelos alunos da Universidade de Harvard, ao qual fez jus por seu “pronunciado machismo” e sua propensão a encerrar discussões à irlandesa , ou seja, na base do sopapo. Não era fácil ser caubói das telas e lidar com as demandas que seu status místico impunha. Esconder a calvície, por exemplo. Se, no meio de uma briga ou cavalgada, lhe caísse o chapéu, qual seria a reação da plateia? Em 1948, já com 23 filmes na algibeira e antes de começar a rodar “O Rastro da Bruxa Vermelha”, Wayne estreou uma peruca que, a exemplo de James Stewart, Frank Sinatra, Humprey Bogart e outros menos votados, nunca mais abandonou diante das câmeras. Seu insinuante andar de machão decidido, copiado do ator característico Paul Fix, figura fácil em centenas de westerns, nenhum outro autor ousou imitar. Dizem que p imperador Hirohito era fascinado pela ginga de Wayne, sem falar de sua rapidez no gatilho. Conhecê-lo pessoalmente foi o primeiro pedido de Hirohito ao chegar em visita aos EUA no pós-guerra. Embora republicano de raiz, Wayne comprou briga com seus correligionários ao se tornar amigo do democrata Jimmy Carter e defender a devolução do canal do Panamá aos panamenhos. Não azedava amizades por discordâncias ideológicas. Nas três vezes em que encontrou Kirk Douglas, democrata ferrenho, ambos evitaram falar em política. O mesmo se deu com o diretor John Ford, conservador à sua maneira, mas democrata histórico, de firmes posições políticas e atitudes corajosas em momentos periclitantes da atividade cinematográfica. Wayne tinha Ford com segundo pai, só o chamava de “pappy”, fazia tudo para agradá-lo. Ford, truculento por natureza, o tratava com extremo rigor e por vezes o humilhava diante dos colegas, com observações como “fui eu quem te ensinou a usar papel higiênico”. Encenaram muitos extermínios de índios, mas na vida real os apreciavam e respeitavam. O cenário apresentado nas prévias republicanas supera o da maioria dos filmes de terror de Hollywood: fake news usadas a granel, religião instrumentalizada para instigar ódios e separar pessoas. O partido republicano de Trump, que investe na polarização social e se aproveita dos distúrbios sociais decorrentes da violência racial para instilar medo e instabilidade na sociedade fraturada, não é o do John Wayne, nem o de Lincoln, que lutou por causas humanitárias muito nobres, como a abolição da escravatura e a unificação do país, nem mesmo o de outros presidentes controversos, como Bush. O partido republicano de Trump, com seu extremismo, pregação do ódio e da polarização, método copiado por admiradores, é uma ameaça à própria democracia americana, conforme alertou Obama. É uma ameaça real e palpável, tal qual aquela da distopia do Conto da Haia.

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