Opinião
Estudantes, ontem
GILBERTO DE MACEDO * Estudantes ? aqueles do Liceu Alagoano. Ontem ? meio século atrás. Aqui, na cidade de Maceió. Neste trecho de memória, expressa-se o que está mais presente na lembrança e enraizado no sentimento. O que ficou. Ter conhecimento disso pode ser interessante para saber da realidade de uma época e da psicologia de uma geração. Na sociedade, a cultura romântica prevalecia. Comovia-se com as canções cantadas pelas estrelas e astros famosos, de então. Músicas populares brasileiras ? ?Boa Noite?, ?Misterioso Amor?; tangos e boleros do compositor mexicano Agustín Lara ? ?Perfídia?, ?Santa? ? envolviam os sentimentos nas horas de solidão. Sonhava-se num mundo encantado, cheio de esperanças. Nem as notícias da guerra na Europa, nem a efervescência nacional da política entre os extremismos da direita e da esquerda, chegaram a embaçar esse estado de enternecimento. O romantismo prevalecia. Nos limites físicos, do estabelecimento, como um reflexo, tudo lá acontecia acomodado à realidade interna, da natureza da instituição escolar. E como era grande o número de alunos, havia, na mesma série, várias turmas, às vezes com professores diferentes. Rapazes e moças vestiam fardas que lembravam o estilo militar, rigorosamente abotoadas, eles de calças compridas, elas de saia abaixo dos joelhos. O ensino, como já foi dito (?Mestres do Liceu?), era da melhor qualidade, a pedagogia atraía o interesse dos alunos. Mas, às vezes, aconteciam fatos divertidos. Assim, na aula de Português, o professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira aconselhava os alunos a ler as obras dos escritores nacionais que, conforme a natureza das mesmas, seriam depois resumidas ou recitadas, inclusive para auferir a nota mensal. Sucedeu, então, que um estudante, que escolhera respectivamente, os poemas ?Passárgada?, de Manoel Bandeira, e ?A Canção de Davi na Janela?, de Jorge de Lima, na hora de recitá-los ficou inibido diante das meninas. Foi então que o professor fez uma advertência de que em poesia nada é imoral, estendendo-se em explicações sobre metáforas. Mesmo assim, o expositor foi penalizado com a perda de cinco pontos! Outro fato divertido foi o seguinte: como as aulas aconteciam no primeiro andar, dois indiscretos adolescentes fixavam-se, logo cedo, no degrau mais baixo, com os olhos voltados para cima, enquanto as meninas, ingênuas, subiam e desciam; um deles chegou a identificá-las pela forma dos joelhos: redondinhos, quadradinhos, compridinhos! Até que um dia foram flagrados pelo inspetor Fialho, e a brincadeira acabou. Curiosidade juvenil daqueles tempos sem televisão e sem licenciosidade, em que o corpo feminino era objeto de respeitável curiosidade. Nos dias feriados, o Liceu desfilava garboso pelas ruas da cidade, tendo à frente duas moças, irmãs, que conduziam as bandeiras, respectivamente, nacional e estadual; as mesmas usavam curtas bermudas ? (vestes ainda não popularizadas pelo modismo local) ? e que permitiam mais destaque à alvura de suas vistosas pernas. O Liceu era o campeão. Um acontecimento que sacudiu a escola e se alastrou por toda a cidade, foi a eleição para Rainha dos Estudantes (de Maceió). Depois de renhida disputa o Liceu saiu vitorioso, elegendo a bela morena Juju Soares. Marcou época! No recreio tinham lugar as manifestações expansivas do ?Pagé? (Jeferson Araújo), Ordener Cerqueira e do Cícero ?Penugem?, que contagiavam todo o ambiente. Indomáveis galhofeiros. E dos políticos, os chamados ?comunistas? ? Bercelino Maia, Aylton Quintiliano, Afrânio Melo, José Nunes (o ?agitador? de Bebedouro), José Casado Valente de Lima que, aos mais jovens, alguns calouros, ensinava o hino da Terceira Internacional... ?Levantai-vos famélicos da Terra!..?. Tudo isso contrastava com outras atividades sérias. Assim às quartas-feiras, à tarde, sob a orientação do padre Teófanes de Barros, no Colégio Guido de Fontgalland, reuniam-se vários estudantes, para ouvir preleções sobre filosofia, com resultados tão positivos que um deles chegou a ler, no original francês, a obra mestra de Jacques Maritain ?Os Graus do Saber?. A juventude em busca do sentido da vida! (*) É MÉDICO