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Opinião

A cor dos olhos

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BENEDITA DA SILVA * A consciência negra no Brasil nasceu quando o primeiro africano foi chicoteado por aqui e esteve presente em várias gerações de escravos, mas na maior parte das vezes guardou-se escondida em senzalas e amarrada por correntes. No início do século XVII, houve uma brisa de liberdade. Reunidos em uma área de 360 km de extensão, que hoje cobre o Estado de Alagoas, e o sul de Pernambuco, negros fugitivos e organizados resistiram à opressão e montaram uma sociedade igualitária, onde viviam em harmonia com índios e brancos. Era Palmares, que se consolidou como símbolo dos quilombos brasileiros, por ter sido o maior deles, o mais organizado, respeitado e poderoso. Batizado com esse nome por estar polvilhado de palmeiras, o quilombo chegou a ter 20 mil pessoas ( o que correspondia a 15% da população brasileira. É sobre esse chão que o governo federal escreve hoje, Dia da Consciência Negra, mais um capítulo no resgate da ?dívida? com o passado escravagista: está sendo lançada a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial. A idéia é destacar a regularização fundiária e o de-senvolvimento das comunidades remanescentes de quilombos. Conjuntamente, o presidente assina decreto que cria o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial. A visita do presidente da República é uma homenagem à terra de Zumbi, o mais famoso dos quilombolas, que tem uma história de superação, inteligência e amor por sua raça. Zumbi nasceu no quilombo, em 1655, mas foi educado por brancos. Aprendeu Português, Latim e Matemática. Foi coroinha na igreja e o batizaram Francisco. Aos quinze anos, em 1670, fugiu da paróquia e voltou ao local de origem para aplicar seus conhecimentos. Tornou-se um líder e fez de Palmares um local onde imperava a justiça social e prosperava o comércio. Assustados com a organização do quilombo, os portugueses conseguiram dissolvê-lo, depois de inúmeras tentativas. Mataram Zumbi em 1695. 20 de novembro ? designado Dia da Consciência Negra ? coincide com a data nacional do herói Zumbi dos Palmares, homem reverenciado não só pelos negros, mas por todos os brasileiros. Ele semeou um conceito que hoje é fundamental para o desenvolvimento econômico e social do País: cidadania para todos. Anos mais tarde, em 1794, a consciência negra fez ecoar com força o grito de liberdade. Os ideais de igualdade étnica tomaram as ruas dentro do coração do Império, em Salvador, na Bahia. Historiadores consideram a ?Conjuração dos Alfaiates? a primeira insurreição social brasileira. Isso porque, inspirados pelos ideais da revolução francesa (que ocorrera cinco anos antes), artesãos negros e brancos exigiam padronização dos soldos militares, acesso a cargos burocráticos para todas as etnias e a abertura dos portos de Salvador para outros países, além de Portugal. Mesmo reprimida, a ?Conjuração dos Alfaiates? deitou raízes quando se fala em libertação da miséria e multiplicação de oportunidades. É essa consciência que pauta as ações do governo. Hoje, mais do que um dia de festa, é uma data para reflexão. Há diversas possibilidades de mostrar a diferença que ainda existe entre negros e brancos no País, mas uma delas é emblemática: a esperança de vida dos brancos tem sido de 72 anos e a dos negros, 66. Não há razão para que um bebê negro tenha tamanha desvantagem ao nascer. O compromisso do governo federal é dar seguimento ao fim das práticas escravistas, cujas cicatrizes ainda estão refletidas nas estatísticas econômicas e sociais brasileiras. A luta pela justiça nas relações raciais é uma tarefa democrática que diz respeito a todas as pessoas que pretendem construir uma sociedade mais fraterna. E então viveremos num tempo ? ilustrado em versos do músico jamaicano Bob Marley ? ?em que a cor da pele tenha tanta importância quanto a cor dos olhos?. (*) É MINISTRA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL

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