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Opinião

A arte não espera convite, ela se apresenta

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Penso que o sucesso de uma obra não depende somente da habilidade e da sensibilidade de seu criador, mas sobretudo do olhar de quem a contempla.

No que tange ao universo pictórico, sabe-se que a sua linguagem chega ao ser humano através dos olhos e o fluxo de informação que é levado até a mente toca de formas variadas um único grupo de pessoas. Sendo o sentido de “beleza” um conceito altamente subjetivo, uma mesma obra produz experiências sensoriais distintas em cada espectador, podendo emocionar, repelir, acolher ou mesmo ser incompreendida. Provocar essa diversidade de sentimentos, ainda que não se possa antever as razões, é papel que não se dissocia da arte. Nem mesmo a obra-prima mais conhecida de todos os tempos, a enigmática Mona Lisa, esquiva-se de causar efeitos controversos. Pode parecer improvável, mas não são poucos os que, tendo a oportunidade de observar pessoalmente a tela pintada pelo maior gênio multifacetado conhecido por nós, o mestre renascentista Leonardo da Vinci, não conseguem captar seu grande valor artístico. “Tanta expectativa para ver uma pintura tão pequena!”, ouve-se com frequência de visitantes do Louvre diante da tela de 77 centímetros de altura por 53 de largura. Entretanto, é preciso se ter em mente que o verdadeiro encanto da arte jamais será definido por dimensões horizontais e verticais. Quem, de fato, se permite apreciar as pinceladas de mais de 500 anos, reconhece no traço e no todo que a grandeza da La Gioconda reside na maestria dos detalhes, ressaltados pelos recursos artísticos utilizados pelo criador, que, buscando a perfeição, retocou a tela até o fim de sua vida.

Pela essência subjetiva, não sobejam dúvidas de que toda e qualquer discussão envolvendo atribuição de valores artísticos jamais terá fim e a tentativa de se estabelecer ponderações sobre o que deve ser considerado arte é percurso arriscado, sob pena de se incorrer no injusto descarte de boa parte da produção cultural e artística da humanidade. Além disso, a evolução da própria história da arte sempre nos convida a presenciar grandes mudanças nos conceitos a ela inerentes. Em termos artísticos, nada é permanente.

Um grande exemplo dessa transformação foi o surgimento do Impressionismo, que representou uma revolução no mundo da arte. O movimento foi um convite à libertação das ideias preestabelecidas, permitindo um novo olhar, uma nova forma de apreciação da arte, a partir do autêntico rompimento com conceitos acadêmicos e tradicionais. Vimos, então, o nascimento de trabalhos criados por meio de uma linguagem particular, o que futuramente exerceria um grande fascínio sobre os seus espectadores. Seguindo essa transmutação de forma ainda mais genuína, adveio o Pós-impressionismo, que, apesar de ter como figura central Paul Gaugin, recebeu do pintor holandês Vincent van Gogh uma ousadia ainda maior, vista nas perspectivas que ele tinha das ruas, dos passantes e das paisagens. Sua obra trouxe, também, um colorido inusitado e traços indisciplinados quase totalmente incompreendidos, não fosse pela aceitação dos familiares e de alguns colegas pintores. Hoje, tem-se a percepção praticamente unânime de que, na tentativa de driblar os problemas psíquicos e as tristezas de uma vida inteira, aquele homem conhecido, no tempo em que viveu, como um louco sem talento, imprimia brilhantemente em suas telas a autoexpressão honesta da sua sensibilidade, da sua gentileza e do seu amor ao próximo, sem saber que um dia suas obras seriam admiradas no mundo inteiro e representariam uma verdadeira fortuna no mercado artístico. Com a mente voltada para a fala que mais me marcou enquanto assistia ao belíssimo filme biográfico No Portal da Eternidade, transmito a serenidade com que Van Gogh enxergava o seu trabalho, sem necessitar de um reconhecimento imediato e com um grande amor pelo que fazia. Quando foi alvo de insinuações ofensivas sobre sua pintura, mesmo tendo a convicção de que estava fora do contexto em que os outros artistas viviam, ele deu a seguinte resposta: “Talvez Ele escolheu a época errada... Talvez Deus me fez um pintor para pessoas que não nasceram ainda. [...] Eu pinto com minhas qualidades e meus defeitos. Eu me sinto como um exilado. Um peregrino nesta terra. Jesus disse: afaste o seu coração das coisas visíveis, e volte-se para as coisas invisíveis”. A arte não espera convite, ela se apresenta. E o melhor caminho a ser seguido pelo artista é o do coração, libertando-se de tendências e ousando sempre que o âmago pedir. Se sua arte será reconhecida no mesmo tempo cronológico de sua existência, isso é uma incógnita, mas quando ela vem do sentimento, uma hora triunfará.

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