Opinião
Manifestações neurológicas causadas pela Covid-19
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A COVID-19 é a doença mais importante já conhecida, por tamanho impacto socioeconômico e pela sua intrigante variedade de manifestações clínicas. Em dezembro de 2019, surgiram os primeiros casos na China, mais precisamente em seu mercado atacadista de frutos do mar. Surpreendentemente, em apenas 30 dias, ela foi capaz de se espalhar de uma única cidade para todo o país. NUNCA foi relatado na história, uma doença de tão grande transmissibilidade e jamais foi vista uma doença com diversas manifestações de sinais e sintomas, que variam desde quadros assintomáticos ou sintomas respiratórios autolimitados até mesmo ao óbito.
A Gripe espanhola, em 1918, foi considerada a “mãe” das pandemias O agente causador foi o tão conhecido, vírus Influenza, e dizimou milhares de pessoas. Por falta de todo o aparato tecnológico da época e também por ter ocorrido durante a I Guerra Mundial, a repercussão social não foi a mesma vivenciada nos dias atuais. Pedro Nava, historiador que presenciou os acontecimentos no Rio de Janeiro em 1918, escreveu “aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades - mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos…”
Interessante lembrar que outros coronavírus já causaram epidemias num passado não tão distante. Em 2002-2003, o vírus SARS-CoV rapidamente se espalhou e o epicentro da doença também foi a China. Já em 2012-2013, o coronavírus MERS-CoV, culminou na síndrome respiratória aguda do Oriente Médio. Ambos tiveram capacidades neuroinvasivas relevantes, e se espalharam do trato respiratório para o sistema nervoso central e periférico. Da mesma maneira tem-se visto na atual pandemia pelo SARS-CoV2, o novo coronavírus. Tais achados não podem ser considerados coincidências, visto que o sequenciamento genético mostra que o SARS-CoV 2 compartilha homologia genética de 79,5% com o SARS-CoV, 50% com o MERS-CoV, e em torno de 96% com coronavírus de morcegos. Um estudo publicado por Paniz_Mondolfi et al., 2020 demonstrou a presença do SARS-CoV2 em tecidos cerebrais frontais em uma autópsia de um paciente com a COVID-19, confirmando assim o neurotropismo. Manifestações neurológicas podem ser encontradas em um terço dos pacientes com a COVID-19, sendo mais comuns em pacientes graves, e podem aparecer no início ou no final da doença, ou ainda após a recuperação. Os achados podem ser tontura, cefaleia, diminuição do olfato (hiposmia) e do paladar (hipogeusia), até mesmo manifestações mais graves, como convulsões, Síndrome de Guillain-Barre e até mesmo o AVC, este último encontrado em 5,7% dos casos, segundo Mao et al., 2020. As manifestações neurológicas reforçam a importância das medidas sanitárias estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde. Evitar o contágio é importante, pois a COVID-19 pode apresentar manifestações tardias com múltiplas repercussões neuropatológicas.