loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Rep�blica dos Palmares

Ouvir
Compartilhar

EDUARDO BOMFIM * O dia 20 de novembro representa a comemoração da resistência da República dos Palmares, que durou praticamente um século. O grito de liberdade dos escravos negros e outros perseguidos pelo regime, que eram acolhidos neste território livre. Uma data marcada por lutas, sacrifícios imensos que se transformaram em uma verdadeira epopéia contra a infâmia da escravidão e o degredo. Um exemplo de insubordinação. Os versos de Castro Alves, inflamados, revolucionários, insurgentes, imortalizaram a grandiosidade do episódio. Recente pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, jamais contestada, demonstrou cientificamente através de testes com DNA, para imenso horror das elites aristocratas, que mais de 70% dos brasileiros considerados brancos possuem sangue negro e índio em suas veias, ou os dois ao mesmo tempo. A ?tese? de se constituir uma civilização, uma classe dirigente, com os mesmos traços da falsa superioridade anglo-saxônica, fanaticamente calvinista de outras nações, caiu definitivamente por terra. É importante destacar que uma acirrada luta teórica foi travada neste terreno quase um século atrás, chegando inclusive a surgir a defesa da necessidade do ?embranquecimento? do povo brasileiro, através da migração maciça de trabalhadores de origem ariana e assemelhada. Formulava-se que o Brasil, em decorrência da sua formação antropológica, jamais atingiria sua vocação industrial. Seríamos a maior fazenda do mundo. Um país ?geneticamente? destinado à agricultura. Rebelavam-se contra o fato de que somos um povo essencialmente mestiço, com determinante caráter negro e índio. O sangue destes regou abundantemente as grandes plantações do Nordeste e das outras regiões da outrora América portuguesa. Persistem fortemente, no entanto, indomáveis resquícios do período escravocrata. O preconceito racista da cor e a saudade por parte de setores das mesmas elites, da casa-grande e da senzala. A necessidade do mando absoluto e inquestionável nos seus imensos domínios. Atualmente, a violência racial confunde-se com a brutalidade assalariada e policial. Apesar disto, neste processo, conformou-se irreversivelmente um povo, um território e uma nação. Através de singulares características históricas, falamos uma só língua e não possuímos movimentos separatistas. Forjou-se um país de dimensão continental, conferindo ao Estado brasileiro um papel geopolítico internacional destacado, temido e cobiçado pelas potências hegemônicas, apesar de tantas misérias e diferenças sociais abissais. A conformação antropológica dos EUA é, por exemplo, diametralmente distinta da nossa. Um país de segregação espacial e guetos oficiosamente constituídos. Dos italianos, poloneses, negros, latinos, judeus, irlandeses, etc. E muito ódio, estimulado, uns contra os outros. Neste sentido é que lá se desenvolveu acentuadamente o chamado multiculturalismo. A busca desesperada da estratificação das raças e suas culturas, o incentivo aberto à intolerância, ao ódio. Quem ganha com isso? Aqueles que buscam escamotear o problema central entre oprimidos e opressores. A apologia falsa e reacionária da superioridade étnica. Assim a América branca, associada a extratos de outras elites minoritárias, inclusive negra - cujos exponenciais mais em evidência hoje são Colin Powell e a dama de confiança da política de Bush, Condolezza Rice - permanece com a sua dominação sobre todos, internamente e no exterior. Desde os seus primórdios o ser humano caminha inexoravelmente na direção do sincretismo, unificação das raças. Ao promover, através de poderosos instrumentos midiáticos e doutrinários, o multiculturalismo buscam fazer cessar esta irreversível tendência. O que nenhuma força bruta ou ideologia conseguiu. Nem os nazistas ou atualmente o sionismo em Israel contra os palestinos, aliás, uma trágica ironia da História. Ao propagar a violenta campanha do ?bem contra o mal? no Oriente, os EUA, promovem semelhante e odiosa doutrina, sempre visando ao lucro e submeter as nações. A República dos Palmares tem sentido oposto. É a bandeira da libertação e a luta contra a discriminação. O barro é outro. (*) É ADVOGADO

Relacionadas