Opinião
Ex�lio e ambiente
MARCOS DAVI MELO * Nos dias que antecederam a celebração do Dia da Consciência Negra, o governo do Estado homenageou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Foi uma iniciativa louvável. A Nação Zumbi tinha tudo a ver com a preservação da integridade do seu povo, da sua cultura e do seu meio ambiente. Os povos ?primitivos?, como os africanos e os indígenas, sempre conviveram em harmonia e responsabilidade com o seu habitat. A ministra Marina Silva tem respeitáveis antecedentes pessoais de luta e resistência contra a depredação do meio ambiente. Inteligentemente, poupou-se a sua excelência a passagem pela Ponta Verde para ver o que lá acontece. Alma sensível, isto seria inconveniente, já que pode estar aturdida com a questão dos transgênicos, mas tem mantido a coerência, o que hoje configura uma virtude peregrina. Pode-se também afirmar sem titubeios, que a causa de Zumbi permanece inequivocamente atual. Foi, como a maioria dos seus companheiros, desgarrado brutalmente de seu chão e sacudido contra a sua vontade em um local distante e hostil. A não ser que exista um motivo extraordinário (como salvar-lhe a vida para escapar de um atentado a bomba), tirar o indivíduo do seu lar, contra a sua vontade, será sempre um ato arbitrário de extrema violência, que na grande maioria das vezes, não terá justificativa. A esquerda brasileira foi durante muito tempo vítima de perseguições que levaram muitos de seus componentes ? principalmente no governo militar ? ao exílio. A maioria dos seus atuais militantes, mesmo não tendo sofrido este desterro (só o conhecendo pelo Élio Gaspari), tem a obrigação moral de saber o quanto é doloroso tirar um cidadão de sua casa sem que ele queira. Por outro lado, a questão ambiental e a sua preservação tem sido tratadas de diferentes formas ao redor do mundo. Se as acusações em relação ao descaso e à degradação do meio ambiente nos países do antigo bloco socialista eram fundamentadas, ressalte-se, que entre nós, a esquerda sempre discursou intransigentemente em sua defesa. Dois temas que se encontram no passado da esquerda brasileira e no futuro de todos nós: a preservação do meio ambiente e o direito ao teto ou o seu oposto: o exílio, o desterro, ou seja lá a palavra que se dê para o ato de retirar o homem de seu lar contra a sua vontade. Por menor que seja o tempo para o algoz, será sempre uma atroz e injustificada eternidade para a vítima. Os que hoje são submetidos ao exílio, ao desterro, mesmo que temporário, vêem e lamentam a depredação do meio ambiente e não tem a quem apelar, não devem desanimar. Esta é a terra de Zumbi, onde a resistência à arbitrariedade tem sido uma constante. Não desistam. É preciso resistir com consciência, persistência e participação coletiva. Exercer a cidadania é penoso. Não é só um direito, mas principalmente um dever. (*) É MÉDICO