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Opinião

O feitiço da mama

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Até poucas décadas atrás toda mulher com tumor de mama era submetida à sua amputação. Isso causava-lhe tamanha repulsa que escondia a doença até estar com ela muito avançada. A amputação ocasionava-lhe perdas essenciais de autoestima, como a força do poder e da conquista moldadas no objeto do desejo masculino. Um estudo randomizado realizado no Instituto de Tumores de Milão nos anos 80 demonstrou que o tratamento conservador do câncer da mama, retirando apenas o tumor com margens e os gânglios da axila, obtinha o mesmo resultado da amputação. Foi uma revolução na Medicina.

A mama feminina é o órgão da anatomia humana mais venerado desde a pré-história. O objeto de arte mais antigo do mundo, a Vênus de Willendorf, estatueta que mostra uma mulher com seios fartos, remonta ao Paleolítico, 24 mil anos a. C. Freud alertava que eles são os primeiros contatos do ser humano com o mundo, sendo fontes de prazer e de angústias, existindo o “seio bom” e o “seio mau”. No Egito dos faraós, a deusa Nut era representada por uma mulher de cujos seios fluíam um leite que formava as estrelas e irrigava a terra. Na mitologia da Grécia antiga, a Via Láctea surgia dos seios de Hera, esposa de Zeus, ao alimentar Hércules . Na tradição católica: Ágata, uma jovem formosíssima que vivia em Catânia, passou a ser cobiçada pelo imperador romano Quintiliano, que não conseguindo possui-la, a condenou a viver em um bordel, de onde saiu virgem. Rancoroso, mandou-lhe amputar os seios. Dois dias depois, Ágata, recebeu a visita de São Pedro, que os recompôs. Foi então condenada à fogueira por Quintiliano. Um ano depois, o vulcão Etna entrou em erupção e o seu véu salvou Catânia da destruição. Santa Ágata é a padroeira dos mastologistas. Nas artes, os seios inspiraram insuperáveis obras primas de gênios de eras variadas, entre eles, Tiepolo, um dos mestres do barroco italiano do século XVIII. Pintores sacros e renascentistas, como Sandro Botticelli e Leonardo da Vinci, em Florença. Posteriormente, o romântico Delacroix, o cubista Picasso, o simbolista Gustave Klimt, os retrataram esplendidamente. Debret, durante a Missão Francesa no Brasil, no reinado de João VI, dedicou-lhes várias obras memoráveis, inspiradas nas mulheres escravas. Na literatura , Simone de Beauvoir, Molière, Philip Roth, Kafka os abordaram vigorosamente. No cinema, Fellini ,Wood Allen, Buñuel nos encantaram com eles como temática básica.

Atualmente, existem no mundo mais de um milhão de mortos pela pandemia de Covid-19. Para câncer de mama, em 2020, a previsão de mortes é semelhantemente e deploravelmente volumosa. A mama feminina continua sendo tanto um órgão icônico como também o câncer da mama, mesmo com os imensos avanços alcançados pela ciência, permanece sendo um desafio extremamente relevante para a Medicina. Sendo, portanto, o diagnóstico precoce através da mamografia e outros exames ainda a melhor conduta para evitar mutilações e mortes desnecessárias. Todas as mulheres nas idades de risco precisam fazer a sua prevenção e os seus diagnósticos precoces, e estrilar muito quando não os conseguirem realizar.

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