Opinião
APELO À FRATERNIDADE UNIVERSAL
.
O papa Francisco lançou, no último domingo, sua terceira encíclica, intitulada “Fratelli Tutti” (todos irmãos), na qual convoca a humanidade inteira a descobrir no amor uma força que deve transformar as relações internacionais, a política, a economia e a cultura. O documento, tratado pelo próprio papa como “encíclica social” – tema que tem sido muito enfatizado pelo pontífice – tem como pano de fundo as "admoestações" que São Francisco de Assis dirigia aos seus irmãos de comunidade, de forma a incentivar a vivência dos valores do Evangelho.
O pano de fundo é a pandemia do novo coronavírus. Na encíclica, Francisco quer mostrar que ninguém se salva sozinho e que chegou realmente o momento de sonhar como uma única humanidade, na qual todos são irmãos. Já no início do documento, o pontífice trata das distorções que alguns dos conceitos mais importantes para uma convivência saudável entre todos possa estabelecer-se e permanecer: democracia, liberdade, justiça, o egoísmo e a falta de interesse pelo bem comum; a prevalência de uma lógica de mercado baseada no lucro e na cultura do descarte; o desemprego, o racismo, a pobreza; a desigualdade de direitos e as suas aberrações, como a escravatura, o tráfico de pessoas, as mulheres subjugadas e depois forçadas a abortar, o tráfico de órgãos e outras questões. Francisco denuncia “uma sociedade doente, que vira as costas à dor e é 'analfabeta' no cuidado dos mais frágeis e vulneráveis”. O documento afirma que “somos todos chamados a estar próximos uns dos outros, superando preconceitos e interesses pessoais”. A grande crítica que Francisco faz na Fratelli tutti se dirige, portanto, ao individualismo exacerbado dos tempos atuais, que apagou a noção de bem comum como um objetivo a ser buscado por toda a humanidade. O papa pede uma mudança de perspectiva radical não só em nível interpessoal ou estatal, mas também nas relações internacionais: a da certeza da destinação comum dos bens da terra. Trata-se uma utopia, é claro, mas, como já disse Aristóteles, a esperança é o sonho dos que estão acordados.